RELAÇÕES
ENTRE RACISMO E FRACASSO ESCOLAR:
Implicações No Atendimento À Queixa Escolar
Sylvia da Silveira Nunes
Faculdades Taboão da Serra – FTS
Atualmente,
o racismo tem sido mais discutido. Mas nem sempre foi assim. Embora
a abolição tenha sido há mais de 100 anos,
é só a partir da década de 1950 que pesquisas
mostram a persistência da crença da inferioridade dos
negros de modo a denunciar o ideal de democracia racial como mito,
o que significa dizer que as relações raciais no Brasil
não são – nem nunca foram – harmoniosas
como o mito da democracia racial anunciou. Ainda assim, a admissão
do preconceito racial é pouco comum. Muitas vivências
de preconceitos são mais flagradas nas entrelinhas, nos olhares,
nas ausências. Se a existência do racismo na realidade
brasileira não é mais tão questionada, o conceito
de raça merece atenção quanto a sua validade
científica e uso. Embora raça não seja um termo
criado pela ciência, ele recebeu o aval científico
principalmente no século XIX. Porém, no decorrer do
século XX, pesquisas puderam comprovar que raça não
existe, pois não há diferenças biológicas
entre os homens. Isto é, todo ser humano tem a mesma capacidade
de desenvolvimento em todos os domínios. Mas se raça
não existe, e se o racismo é a discriminação
de pessoas por meio da idéia de raça, esses termos
podem ser utilizados? O problema é que a utilização
do conceito de raça desde o século XVII não
é apenas no sentido de mostrar diferenças físicas
entre grupos humanos, mas, sobretudo em hierarquizá-los,
ou seja, definir, defender e justificar grupos de pessoas naturalmente
superiores e inferiores. E se a ciência já superou
a idéia de raça, o mesmo não aconteceu com
a necessidade social de hierarquizar grupos de pessoas, a fim de
manter a organização social estruturada em classes
privilegiadas e subordinadas. Assim, raça continua a ser
um conceito utilizado no cotidiano para separar e hierarquizar pessoas.
A escola como espaço de construção e reprodução
das relações sociais em hipótese alguma está
ou esteve isenta de preconceitos. Muito pelo contrário, ela
é um espaço privilegiado de demonstração
de racismo e, também, de possibilidade de reflexão
e superação deste. Pesquisas atuais mostram a presença
do racismo na escola por meio de falas preconceituosas de professores
para os alunos; xingamentos entre os alunos, sem nenhuma recriminação
do professor; uso de material didático em que o negro é
pouco freqüente ou inferiorizado etc. A presença do
racismo na escola deixa marcas profundas na construção
da identidade dos alunos. Se historicamente o negro foi acusado
de pouco inteligente e com tendências ao crime – com
o respaldo da ciência, no final do século XIX –
tal preconceito ainda existe no cotidiano, e muitos negros percebem
isso desde o início da vida escolar. A crença na incapacidade
do negro se transforma em “profecia auto-realizadora”
e mais uma vez vemos a vítima se tornar culpada pelo seu
fracasso escolar. Se esse fracasso é construído coletivamente
no processo de escolarização e se o racismo faz parte
da escola, então, é preciso urgentemente atentar para
as conseqüências do racismo, a fim de lutar contra essa
poderosa arma de hierarquização social.
Palavras-chave:
racismo, preconceito racial, racismo na escola, queixa escolar.
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