O
que os jovens têm a dizer sobre a adolescência e o tema
da morte? Cláudia Fernanda Rodriguez (Universidade de São
Paulo) claudiafr@uol.com.br
Os
jovens têm sonhos, almejam realização pessoal
e profissional, estão no "auge da vida" e, assim,
é comum o pensamento equivocado de que não existe
espaço para se pensar em tragédias e mortes neste
período do desenvolvimento.
Atualmente,
com a expectativa de vida elevada e com o progresso constante das
técnicas médicas, as mortes de jovens devem ser consideradas
"perdas injustificadas". Porém, as estatísticas
mostram dados alarmantes sobre o aumento da mortalidade entre adolescentes,
principalmente relacionadas com acidentes de trânsito e mortes
violentas como homicídios e suicídios.
Esses
números provocam alguns questionamentos: como os adolescentes
percebem, refletem e se relacionam com o tema da morte? Como eles
explicam as altas taxas de mortalidade na sua faixa etária?
Os jovens sentem necessidade de discutir o tema da morte com a família,
amigos, professores e outros profissionais? Quais seriam as formas
de abordagem possíveis?
Jovens
ao serem questionados sobre isso, apontaram algumas reflexões:
"não tenho medo de morrer"; "não faço
nada para preservar a vida, corro riscos"; "não
penso na possibilidade da morte acontecer comigo"; "o
jovem sabe que ele morre, mas ele vai desafiando, acha que morre
quando ele quer...".
Assim,
num período do desenvolvimento marcado por mudanças
no corpo, profundas transformações, novas experiências,
conflitos de sentimentos, busca da identidade, questionamentos da
família, sociedade etc., o paradoxo vida e morte se mostra
fortemente presente. Há uma busca intensa pela vida, expressando-se
sentimentos de onipotência e imortalidade e, com isso, podendo
ocorrer uma aproximação de perigos e a possibilidade
de morte.
Jovens
relatam que em situações de prazer, normalmente, não
pensam na possibilidade de morte: "imortais? O adolescente
se sente assim na hora que ele está sentindo prazer e ele
acha que nada pode dar errado"; "quando você está
se divertindo, hoje é hoje e já era, o limite é
a morte".
Sobre
a possibilidade de transformar a realidade atual na qual percebe-se
a crescente mortalidade entre os jovens, alguns adolescentes ouvidos
apontaram como caminhos: ocupar o tempo ocioso dos jovens; a necessidade
de mais limites externos; mais responsabilidade sobre seus atos
e conseqüências mesmo em grupo; o jovem poder se perceber
como sujeito de sua própria ação e, assim,
da prevenção de comportamentos de risco e a possibilidade
do jovem pedir ajuda e expor sentimentos e dúvidas no diálogo
com pais, educadores e os próprios amigos.
Em
relação à discussão sobre a morte na
adolescência, jovens apontam a escola como um importante espaço
para possibilitar a reflexão sobre o tema. Relatam a possibilidade
de compartilhar informações, opiniões, sentimentos,
dificuldades e experiências entre amigos e professores. Um
adolescente ouvido sobre isso apontou: "você vem para
a escola para aprender, então a escola tem que ensinar tudo
o que você puder aprender... não só o tema da
morte, mas outras coisas que os jovens têm dúvidas
e têm medo de falar". As sensações de acolhimento
e segurança são apontados como podendo refletir num
melhor rendimento escolar.
Assim,
a escola pode propiciar espaços para o aluno se fortalecer,
se proteger e saber lidar com situações de risco,
além de poder ocupar e enriquecer o tempo dos jovens. Percebe-se
uma disponibilidade dos educadores em se preparar para a abordagem
do tema: "o tema da morte é tão necessário
no contexto escolar quanto os temas sexualidade e drogas, principalmente
por ser evitado na sociedade".
Uma
professora ao refletir sobre a abordagem do tema da morte na escola
e a possibilidade de trabalho com os adolescentes concluiu que:
"as pessoas estão acostumadas a não falar sobre
a morte... falta uma percepção de quanto isso é
importante... a escola pode promover este espaço até
mesmo para uma cura de algo que está provocando um sofrimento".
Sendo
que a maior parte das mortes de jovens são provocadas por
causas não naturais, existe, dessa forma, a possibilidade
de trabalhos de prevenção nesse sentido. Observa-se
que não deveria ocorrer uma imposição de atividades,
ou seja, a forma ideal de construção e execução
destas envolveria profissionais de saúde e educação
e os próprios adolescentes. Portanto, é fundamental
ouvir o que os jovens têm a dizer sobre isso.
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