Desvendando
vozes silenciadas: adolescentes em situação de exploração
sexual Renata Maria Coimbra Libório (UNESP / Campus de Presidente
Prudente) coimbralibor@uol.com.br
A presente pesquisa trata da problemática
da exploração sexual comercial de adolescentes, visando
descortinar os processos que conduzem à produção
desse fenômeno na sociedade contemporânea. Buscamos
compreender a natureza e características principais do fenômeno,
a partir das opiniões e vivências de adolescentes inseridas
nesta condição, moradoras de uma cidade de médio
porte, no interior do Estado de São Paulo, Brasil. Para tanto
realizamos uma análise da literatura da área e um
estudo de campo, que contou com a participação de
14 adolescentes do sexo feminino, que se encontravam em situação
de exploração sexual comercial, expressa basicamente
na modalidade de prostituição.
Utilizamos os seguintes instrumentos
de pesquisa: questionários-entrevista, relatos orais, observações
e informações de educadores sociais. As protagonistas
da pesquisa foram as adolescentes, sendo que as informações
obtidas junto aos educadores sociais, assim como a partir da observação
de campo, foram fundamentais para desvendar os processos que produzem
e sustentam o fenômeno da exploração sexual
na realidade estudada. A partir dos resultados obtidos elaboramos
o perfil sócio-demográfico das adolescentes e suas
famílias e criamos categorias temáticas expressivas
dos conteúdos identificados a partir das falas das participantes
da pesquisa. Na análise dos resultados, verificamos que as
categorias temáticas do enfoque teórico adotado, a
saber, violência estrutural, violência social e interpessoal,
o processo de vulnerabilidade e construção de identidade,
compreendidos na perspectiva da violação de direitos
humanos e inseridos na discussão da sexualidade / adolescência
/ violência, se evidenciaram como fundamentais para a compreensão
do fenômeno estudado.
Na produção e manutenção
da exploração sexual comercial de adolescentes, encontram-se
presentes múltiplos fatores que se entrecruzam de forma sinérgica
nas trajetórias de vida das adolescentes. Esses vários
fatores podem ser agrupados em três conjuntos: um conjunto
de fatores macro-contextuais (externos - sobre os quais o sujeito
tem pouco controle), um outro composto pelos fatores micro-situacionais
e relacionais (externos - sobre os quais já é possível
uma interferência maior por parte do sujeito) e o terceiro
conjunto de fatores mais internos, referentes à subjetividade
do sujeito, nomeado de conjunto de fatores psicológicos.
A inserção na exploração sexual comercial
introduz a adolescente em um círculo vicioso de difícil
rompimento, impondo a vivência de contínuos ciclos
de violência, com conseqüências prejudiciais ao
seu desenvolvimento psicológico, físico e social,
a curto, médio e longo prazo.
Intervenções sociais
podem ser importantes para fornecer suporte material e afetivo às
meninas inseridas neste ciclo ininterrupto de violência e
exploração, como um caminho que poderá restituir
seu potencial de resistência e liberdade. Além do desenvolvimento
dessas ações, é fundamental que a sociedade
repense suas concepções sobre os direitos das crianças
e adolescentes, sobre o corpo, vivência de sexualidade e direitos
sexuais da população juvenil, valores culturais e
sociais, para a superação de concepções
moralistas e repressoras que acabam por permitir a emergência
e perpetuação da exploração sexual comercial
de crianças e adolescentes.
Os resultados encontrados na presente pesquisa podem constituir-se
como elementos para reflexão de profissionais da área
da Psicologia que atua em diferentes contextos. Aqueles que trabalham
em contextos educacionais, seja nas escolas ou em projetos sociais,
podem trabalhar no desenvolvimento de condutas auto-protetoras,
através de projetos de educação afetivo-sexual,
que pode possibilitar o desenvolvimento da vivência de uma
sexualidade emancipatória, sendo esta ação
considerada como possibilitando a prevenção do fenômeno;
além destes profissionais, o conhecimento construído
através desta pesquisa pode subsidiar a ação
de psicólogos que atuam em psicologia social e comunitária
(nas Secretarias de Assistência Social), bem como aqueles
profissionais que trabalham como conselheiros tutelares, bem como
os que trabalham nos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança
e do Adolescente e têm influência na elaboração
de políticas públicas de atendimentos à crianças
e adolescentes em situação de exclusão social.
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