Psicologia Educacional e Arte: Um Exercício Histórico-Dialético Para Compreensão Do Homem Contemporâneo
Sonia Mari Shima Barroco – UEM/UNESP – Araraquara
soniashima@uol.com.br

O emprego da representação gráfica da figura humana na Psicologia tem sido alvo de muitos estudos, quer salientando os aspectos que favorecem de fato a apreensão dos indivíduos por esse recurso, quer demonstrando a sua fragilidade, como pode ser encontrado em autores como Anzieu (1978), Anastasi (1977), Hammer (1981), Van Kolck (1984), dentre outros. Os autores reconhecem a relação entre os conteúdos psicológicos e a expressão dos mesmos no Desenho da Figura Humana. Por meio deste, os sujeitos acabam expressando a imagem de si mesmos, que resulta de dada forma de relação social, sendo portanto a representação de um conjunto de inúmeros fatores. Todavia, os autores não questionam acerca do quanto essa imagem constituída socialmente é datada, própria de um certo período histórico. Desse modo, os conteúdos psicológicos que se apresentam são tomados “descolados” das condições sócio-históricas.


Enquanto docente e psicóloga, entendemos que a Psicologia precisa apreender o psiquismo humano e explicá-lo, e para isso necessita de outros recursos ou mediações. Ao lidar com os enfrentamentos do homem contemporâneo, deve considerar que, embora as histórias de vida pessoais e as familiares sejam originais e únicas, há questões comuns a todas elas, e a todos os homens dessa época. Nesse sentido, desenhou-se a possibilidade de irmos além. Se o emprego da figura humana, enquanto recurso, pode revelar dados da psique, ou da personalidade, pareceu-nos possível olhar para as representações artísticas pictóricas de figuras humanas e nelas vermos projetadas não apenas a produção psíquica de uma pessoa (do pintor), mas os conteúdos presentes entre os homens de uma dada sociedade.


1. Dos aspectos metodológicos da pesquisa com telas de pintura
Considerando quanto o homem é produto de todos os outros homens (VIGOTSKI, 1998; VYGOTSKY e LURIA, 1996; VIGOTSKII, 1998), fomos às telas de pintores dos séculos XIX e XX para estudar como a figura humana foi apresentada. Detivemo-nos, principalmente, nas figuras de Portinari, Di Cavalcanti, Dacosta, Almeida Jr., Tarsila, Segall, Nery e Malfatti, selecionados por marcarem grandes diferenças na forma de representar o homem, em comparação com outros artistas. Em suas telas, delineia-se uma forma humana que passou a ser quase hegemônica no século XX. Discutimos que nos homens representados podíamos “ler” os conteúdos que foram se impondo, indo da diferenciação, passando pela “deformação” e chegando até a supressão da figura humana. Relacionamos o conteúdo e formas humanas às características psicológicas humanas emergentes num contexto em que a racionalidade tecnológica se impôs e o capitalismo encontrou-se em sua forma monopolista e financeira. Interessou-nos, então, pesquisar acerca da emergência de uma nova forma de representação da figura humana pela pintura moderna, da última década do século XIX aos meados do século XX, e suas implicações com a realidade objetiva.


Perguntamos: O que leva ao aparecimento de uma representação de homem diferente de até então: deformado (ASSIS BRASIL, 1987), sem aparato e riqueza de detalhes, em cenários e roupagens simples, mas com angústia e sofrimento eminentes? Seria essa representação a expressão da própria falta de contorno, de beleza e de conteúdo do homem contemporâneo? Homens sozinhos, com os olhos esvaziados ou sem direção, estariam relacionados à falta de perspectivas próprias dessa época? A lógica das telas modernas, a crescente falta de enredos seriam sintomas da vida contemporânea, que tende a ser abordada esvaziada da historicidade? Para tanto, considerando a arte enquanto expressão da vida (NAGEL, 1992), relacionada com o meio social, a reação estética e, principalmente, podendo expor tendências comportamentais. Trabalhamos com três eixos para informar-nos acerca do homem, pela gradual perda da “forma humana” nas figuras:

1. Trabalho forjando os trabalhadores: em busca do desenvolvimento

Caipira Picando Fumo -Almeida Júnior, 1893, Mangue -Di Cavalcanti, 1929, Café - Portinari, 1935, Operários - Tarsila do Amaral, 1933, Greve Geral - Segall, 1956.

2. Família, pobreza e desfiguração

Sem título - Di Cavalcanti, 1929, A Família Enferma - Segall, 1920, Criança Morta - Portinari, 1944, Retirantes - Portinari, 1944, Favela - Segall, 1954.

3. Desfiguração do indivíduo: do dantesco ao abstrato

 

A Boba - Malfatti, 1915/1916, Auto-retrato -Ismael Nery, década de 1930, Auto-retrato II - Segall, 1919, Três Figuras na Rua - Di Cavalcanti, 1958, Roda - Dacosta, 1942, Figura - Dacosta, 1951, Retrato de Alexandre - Dacosta, 1959.

Dos estudos teóricos e das análises qualitativas
Podemos dizer que a grande marca que o processo de sobrevivência atual registra sobre o indivíduo reside no distanciamento entre o homem-trabalhador e o conhecimento a respeito do mundo e de si mesmo. Se nas obras de Marx e Vygotsky há respaldo teórico para esse entendimento, nas telas visualizamos a ilustração desse processo instituído. Observamos quanto as demandas do capital monopolista financeiro (HOBSBAWN, 1995) se expressam tanto no trabalho quanto na composição/constituição do próprio trabalhador nas telas analisadas. Isso porque, uma tendência pictórica que ganhou força no período destacado, foi a de apresentar os homens não mais por suas virtudes ou características positivas, como era a tônica no Renascimento, na aurora do capitalismo (séculos XV e XVI), e no início da época moderna (século XVII), mas por aquilo que, de fato, o processo produtivo da sociedade industrial lhes engendrou. Ou seja, as demandas da industrialização e da globalização já estavam postas, bem como as suas conseqüências: indivíduos que trabalham, mas que parecem não desenvolver suas potencialidades. Produzem, mas não se apropriam.


A pobreza do caipira, das prostitutas e dos trabalhadores do campo entra em cena, bem como os vícios, ao invés das virtudes próprias ao ideário republicano - originado dos princípios das revoluções burguesas. Vimos que o “trabalhador cai no pauperismo, e este cresce ainda mais rapidamente que a população e a riqueza” (MARX e ENGELS, 1963, p. 30). Não pensamos que a pobreza, em si, impeça o pleno desenvolvimento das potencialidades humanas, mas as condições que a produzem também pauperizam os indivíduos do conhecimento, de condições mais salutares de vida, etc..


Por outro lado, não foi por acaso que solidão, miséria, esvaziamento, depressão etc., se apresentaram em muitas telas. A expressão disso tudo em telas e a própria generalização crescente desses aspectos parecem ter sido conseqüências de um processo doloroso e antagônico pelo qual a humanidade passava: a conquista tecnológica tornando possível o aumento na diversidade e variedade da produção, e a deposição gradual da possibilidade do seu desfrute, bem como da capacidade de pensar, analisar e agir, e de apropriar-se do mundo.


Pudemos discutir a relação entre o crescente processo de alienação/expropriação do homem e o “desmanche” da figura humana nas telas, pois estas em meados do século XX, passaram à uma representação cada vez mais esquemática do homem.
Quando ‘a vida era mais ou menos surrealista’ (Tarsila, apud BATISTA, 1980, p. 93), os artistas foram borrando e manchando, retirando, cada vez mais, os olhos, as roupagens, os adereços, etc., das figuras humanas. Enquanto o avanço da ciência e a perspectiva de mundo globalizado conviviam com a possibilidade crescente de destruição humana pelas grandes guerras, os retratados foram tendo cada vez menos a contar.


Assim, podemos pensar que a tradução dessa época deu-se, nas telas, pela intensificação da “deformação” das figuras humanas, pela desconsideração da proporção e da regularidade da forma e da cor, pela deposição do requinte e da perfeição figurativa, presente em outras épocas.


Admirando ou não a pintura moderna, ao pensarmos nas representações de figuras humanas de épocas anteriores, podemos concluir o tamanho do “esvaziamento” e da “redução” ocorridos: se há enredo, não há protagonista, ou melhor, qualquer um pode sê-lo, posto que as identidades são diluídas, se há protagonista pode não haver um enredo claro. Essas representações são produtos de uma sociedade que, contraditoriamente, requisita aos indivíduos que sejam “recheados” de talentos e competências, se não naturais, forjados nos limites das labutas cotidianas. Tais “recheios” têm servido para que, incansável e metricamente, os indivíduos “componíveis” e substituíveis façam atividades repetitivas, esvaziadas de sentido e significado.


A arte mostrou-se fecunda em: informar as diferentes possibilidades do existir humano com as ações e reações que promovem mudanças estruturais e conjunturais da sociedade; em ilustrar que uma dessas reações consiste no próprio modo como os indivíduos interagem, como se pensam e se retratam. Compreendemos que seu sentido educativo ultrapassa a esfera da estética, pois provoca a associação entre a emoção e a racionalidade, e quando aprendemos a fruí-la somos educados por outras dimensões. E a educação, como a vemos, envolve a possibilidade dos sujeitos se apropriarem e operarem com o conhecimento adquirido realizando análises, comparações, contraposições, deduções etc, e é essa relação, cheia de vitalidade com o conhecimento, que pode subsidiar os indivíduos em seus desafios diários e constantes.


Desse modo, entendemos que cabe à psicologia educacional buscar possibilidades de desvendamentos, por parte dos indivíduos, do que se passa com eles mesmos e com os outros, indo além da constatação e descrição de estados emotivos, buscando razões para os eventos psíquicos fora das percepções imediatas e individuais.


A pesquisa revelou que a mera transmissão de conhecimentos já prontos ou codificados retira dos indivíduos a capacidade energética de um “vir a ser”, de os homens sentirem, viverem e modificarem a sociedade. Pensar com os indivíduos suas sensações e percepções acerca desse mundo, levando-os a perguntarem sobre si mesmos e sobre os outros, implica numa maior consciência, e na busca de condições para agir de acordo com ela. Nesse sentido, as interlocuções da Psicologia com a Educação e a Arte revelaram-se fundamentais para desvendar a constituição social do psiquismo humano.


REFERÊNCIAS
ANZIEU, D. Os métodos projetivos. Trad. Maria Lúcia Eirado Silva. Rio de Janeiro: Campus, 1978, p. 207.
ASSIS BRASIL. Arte e deformação: como entender a Estética Moderna. São Paulo: Nacional, 1987.
BARROCO, S. M. S. A Figura humana na pintura moderna: alternativa para a educação e a psicologia entenderem o homem. Dissertação de Mestrado do programa de Pós-Graduação em Educação. Maringá: UEM, 2001.
BATISTA, M. R. Anita Malfatti e o início da Arte Moderna no Brasil. 1980. 258 p. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo. São Paulo: 1980. vol.1.
FAUSTO, Boris. III O Brasil Republicano: 1 Estrutura de Poder e Economia (1889- 1930). São Paulo: Difel, 1982.
HAMMER, E. F. Aplicações clínicas dos desenhos projetivos. Trad. Eva Nicck. Rio de Janeiro: Interamericana, 1981.
HOBSBAWM, E. J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Trad. Marcos Santarrita. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MARX, K. e ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. 5. ed. Rio de Janeiro: Vitória, 1963.
NAGEL, L. Produção da Vida - Produção da Arte: Análise da Sociedade e da Produção Artística do Século XII ao Século XX. Apontamentos, Maringá, n.2, abr.1992.
VAN KOLCK, O. L. Testes projetivos gráficos no diagnóstico psicológico. São Paulo: EPU, 1984.
VIGOTSKI, L. S. Psicologia da arte. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
VYGOTSKY, L. S. & LURIA, A. R. Estudos sobre a história do comportamento: símios, homem primitivo e criança. Trad. Lolio Lourenço de Oliveira. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
VIGOTSKII, L. S. La Imaginación y el arte em la infância. 4 ed. Madrid: Akal, 1998. LE 1979. p.25,




 
     

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