Problemas
de aprendizagem ou problemas na escolarização? Marilene Proença Rebello de Souza (Universidade de
São Paulo) mprdsouz@usp.br
A
pesquisa recente a respeito da participação da Psicologia
no pensamento educacional brasileiro considera que a concepção
de “criança problema” ou ainda de “problema
de aprendizagem” origina-se na abordagem psicanalítica
do início do século XX. Os primeiros trabalhos que
utilizam o conceito de criança problema aparecem na literatura
médica no final da década de 1930, no Brasil, pelas
mãos de médicos, psicanalistas, destacando-se a obra
do médico Arthur Ramos, “A creança problema:
a hygiene mental na escola primária”, 1939 (Patto,
2002). Nesse momento, o pensamento psicanalítico questionava
a visão inatista de que o não aprender ocorria em
função de poucas habilidades e aptidões advindas
de herança genética. Mas, embora avançando
na direção de uma interpretação que
considerava o ambiente como participante da constituição
da personalidade, as concepções psicanalíticas
receberam forte influência do movimento higienista, visto
como uma alternativa para a prevenção de problemas
escolares (Dacome, 2003).
O pensamento psicanalítico dos anos 1940 questionava os conceitos
de inteligência presentes nos testes psicométricos
e a “neutralidade” do “rapport” estabelecido
e propunha a entrevista psicológica; questionava o caráter
inato da aprendizagem e defendia a importância do papel da
família no desenvolvimento de uma criança saudável;
acreditava no tratamento terapêutico psicológico para
resolver os casos “problema” e desenvolvia uma série
de ações visando a psico-higiene familiar e do professor.
O tratamento à “criança-problema” passa
a ser oferecido em clínicas, dentro ou fora da escola, mas
com um enfoque no tratamento da criança e sua família.
O problema do não aprender seria um sintoma de uma relação
familiar inadequada, mal-resolvida.
E a escola, que influência teria na produção
dos chamados “problemas de aprendizagem”? Essa pergunta
passa a ser feita pelos educadores nos anos 1930 no Brasil, no bojo
do movimento da Escola Nova. No Manifesto dos Pioneiros, a crítica
a uma escola de má qualidade já se faz presente. Mas
é apenas a partir dos anos 1970 que a escola, sua estrutura
e funcionamento começam a ser objeto de maior questionamento
na literatura sociológica. No bojo do movimento estudantil
do final dos anos 1960, sociólogos da educação
como Bourdieu, Althusser, Passéron e Establet passam a discutir
o papel social da escola, ou seja, consideram sua parcela de contribuição
para a manutenção do “status quo” (Saviani,
1986). Questiona-se, portanto, o caráter integrador e socializador
da escola, a prática docente reprodutora das relações
de desigualdade social, os currículos, a influência
da violência simbólica produzida no interior das instituições
escolares. Consideram que a escola estaria a serviço de uma
elite para mantê-la no poder, alijando desse universo, as
camadas populares que, quando bem-sucedidas na escola acabariam
por assimilar os valores das elites.
A abordagem sociológica ao fenômeno educativo possibilitou
identificar que os que fracassam na escola não são
os filhos das elites, mas sim as crianças oriundas das camadas
mais pobres da população. Um dos focos da pesquisa
em educação no Brasil passa a incluir a crítica
escolar, voltando a atenção do pesquisador para o
funcionamento da escola e suas dificuldades.
Paralelamente à influência da vertente sociológica
na pesquisa educacional, um conjunto de idéias que tem sua
origem nos Estados Unidos da América, passa a se fazer presente
enquanto explicação para a realidade educacional brasileira,
a chamada "teoria da carência cultural” (Patto,
1998). Fruto dos movimentos reivindicatórios das minorias
negras e de imigrantes latinos que apresentavam baixo rendimento
escolar, essa teoria procurava responder à pergunta: por
que um grande contingente de crianças negras e imigrantes
não aprendia na escola pública americana? Para responder
essa questão, psicólogos e demais profissionais passaram
a pesquisar as causas dos problemas de aprendizagem, buscando-as
nos aspectos do desenvolvimento infantil, nas áreas de nutrição,
linguagem, estimulação, cognição, inteligência,
motricidade etc. Ocorre, porém que os resultados dos experimentos
realizados por tais crianças eram comparados com aqueles
obtidos com crianças de classes média e alta da sociedade
americana, branca e empregada. Tais resultados eram considerados
como padrão de normalidade.
Essas comparações levaram a crer que as crianças
das classes populares eram portadoras de toda sorte de déficits:
cognitivos, intelectuais, culturais, lingüísticos. O
caráter artificial e positivista de boa parte dos experimentos
científicos realizados e a escolha de valores de classe social
como parâmetros de normalidade passaram a ser questionados
a partir dos anos 1980. O avanço das pesquisas em Antropologia
Social trouxe importante questionamento quanto às afirmações
em relação às diferenças culturais,
introduzindo metodologias que objetivavam apreender a cultura popular,
tão desconhecida da pesquisa acadêmica e principalmente
de psicólogos e educadores.
Como vivem as famílias das classes populares? O que pensam
sobre a educação de seus filhos? Como realizam essa
educação? Como é a linguagem nas classes populares?
Como é a escola oferecida a essas crianças? Como se
dá a participação dos pais na escola?
Até os anos 1980, sabia-se muito pouco sobre a dia-a-dia
de uma escola que atende crianças das classes populares.
Era preciso conhecer a “escola por dentro”, seu funcionamento
sua vida diária; dar voz aos seus protagonistas: professores,
alunos, pais, funcionários; entendê-la na ótica
da formação de professores; descrever os processos
educacionais presentes na produção do fracasso e do
sucesso escolares.
E o que se sabe hoje a respeito da escola pública de ensino
fundamental oferecida às crianças e adolescentes das
camadas populares? Não pretendo nesse curto espaço
apresentar o conjunto das pesquisas ou o conjunto do conhecimento
acumulado, mas há uma tendência nas pesquisas realizadas
nos campos da Psicologia Escolar e da Educação no
sentido de questionar o locus dos problemas de aprendizagem quer
na criança, quer em sua família ou em suas condições
de vida.
A pesquisa atual tem ressaltado que a crença na incapacidade
ou nas limitações dessa capacidade por parte do professor
influi no bom desenvolvimento do processo de aprendizagem; a existência
de dificuldades pessoais ou familiares por parte do aluno não
exclui a participação do educador na busca de alternativas
educacionais; a relação ensinar-aprender é
atravessada pelo funcionamento institucional escolar, definindo,
muitas vezes, a qualidade do aprendizado; a participação
dos pais muitas vezes define, do ponto de vista da escola, a qualidade
da relação escolar estabelecida; a insatisfação
muitas vezes vivida pelo professor na relação escolar,
fruto de políticas públicas inconseqüentes, é
repassada na relação pedagógica e com seus
pares.
O desvelamento da vida diária escolar aponta para a complexidade
das relações ensino-aprendizagem. Tais relações
envolvem aspectos da política educacional, da organização
institucional, da formação de professores, das histórias
individuais e profissionais, das relações da escola
com os pais e destes com a escola, da relação face
a face da sala de aula, da constituição de grupos
em sala de aula, da constituição de normas e regras
de funcionamento, dentre outros.
Esse conjunto de relações se entrelaçam na
história escolar de cada criança e na história
profissional de cada professor. Considerando que as relações
escolares são produzidas no contexto escolar, como conhecê-las,
como apreendê-las? Conhecer a história escolar revela
o quê a respeito das dificuldades vividas no presente momento
de escolarização desta criança ou adolescente?
Ao pensarmos dessa maneira, mudamos a compreensão dos chamados
problemas de aprendizagem, ou seja, mudamos a nossa pergunta em
relação aos problemas de aprendizagem. Da pergunta
anterior: por que esta criança ou este adolescente não
aprende, passamos para a seguinte questão: que situações
e relações vividas no dia a dia escolar são
produtoras do não aprendizado desta criança ou deste
adolescente?
A natureza dessas duas questões definem explicações
distintas a respeito dos chamados “problemas de aprendizagem”.
No primeiro caso, quando um profissional de saúde ou um educador
pergunta o porquê do não aprender, ou ainda o porquê
da criança apresentar determinado comportamento indesejável,
revela a crença de que a resposta a esta pergunta encontra-se
na natureza dessa criança, nos seus processos psíquicos
ou nas suas relações com o outro. Dessa maneira, esse
profissional organizará uma série de instrumentos
com o objetivo de encontrar esse porquê, utilizando, geralmente,
testes psicológicos, observações e entrevistas
com os pais para levantar aspectos do desenvolvimento infantil e
de dinâmica familiar que expliquem este fenômeno.
A mudança da natureza dessa pergunta para o levantamento
das situações e relações vividas na
vida diária escolar, enquanto produtoras de não aprendizagem
e ou de comportamentos indesejáveis, exigirá uma mudança
nos instrumentos utilizados para compreender esse conjunto de ações.
Conduzir-nos-á à necessidade de conhecermos a história
escolar dessa criança e como essa história vem sendo
construída nas relações escolares com o corpo
diretivo, professores e colegas.
A construção da história escolar deve levar
em conta:
o âmbito institucional: como funciona essa escola em relação
à proposta pedagógica, quanto a regras e normas; à
estruturação das classes; à escolha de professores
etc.
o âmbito do professor: sua experiência, sua história
profissional nesta escola; aspectos que envolvem a escolha desta
sala; apoio pedagógico; estruturação do trabalho
pedagógico; organização de normas e regras;
a queixa sobre a criança encaminhada, sua história
com essa criança; as tentativas de lidar com a situação
etc;
o âmbito familiar: a história escolar da criança,
como a vêem na escola, que episódios escolares a criança
apresenta; a relação dos pais com a escola etc;
o âmbito do aluno: como se representa nessa sala de aula;
o que conhece de sua história escolar; que episódios
de fracasso e de sucesso foram vividos nesse grupo, quem são
seus amigos, como analisa a queixa do professor etc.
A história escolar é um instrumento que permite compreender
a estruturação e o funcionamento de um conjunto de
relações que culminam com o não aprendizado,
ou com o chamado aluno indisciplinado. A mudança no olhar
para essa questão possibilita entre outros aspectos: a participação
ativa do professor na compreensão da queixa; a participação
e a implicação da criança na compreensão
do que acontece e a participação e análise
dos pais a respeito do ocorrido (Machado, Souza e Sayão,
1997).
A nossa experiência, enquanto psicólogas escolares
vem mostrando que a abordagem que se desloca dos problemas de aprendizagem
para os problemas de escolarização possibilita-nos
outra percepção da complexidade dos fenômenos
escolares e a busca negociada de resolução de problemas
no âmbito da escolarização. Quaisquer abordagens
em Psicologia que garantam voz àqueles que historicamente
têm sido desconsiderados no processo educacional estarão,
de alguma forma, assumindo um compromisso político e social
na direção do processo de humanização.
Qualquer atuação profissional que façamos no
campo educacional deve ter como finalidade a melhoria da qualidade
social da educação seja ela no campo da escola pública
ou privada. A superação de modelos patologizantes
de interpretação do processo educacional precisam
ser diariamente questionados e superados, por meio da análise
e da reflexão a respeito da prática pedagógica
que muitas vezes contradiz discursos mais avançados. O enfrentamento
das ambiguidades dos discursos educacional e psicológico
possibilitarão novos agenciamentos entre os profissionais
que atuam no campo educacional, impulsionando novos enfrentamentos
no sentido de construir uma educação com qualidade
social para todos os alunos.
Referências
Conselho Regional de Psicologia – 6ª Região (Org.)
(1997). Educação Especial em Debate. São Paulo,
Ed. Casa do Psicólogo.
Dacome, O.A. Higienismo e Psicanálise. In Boarini, M.L. (2003).
Higiene e Raça como projetos. Paraná, Ed. Univ. Estadual
de Maringá.
Patto, M.H.S. (2002). A produção do fracasso escolar.
São Paulo, Ed. Casa do Psicólogo, 2ª. Ed..
Patto, M.H.S. (1998). Introdução à Psicologia
Escolar. S.P. Casa do Psicólogo.
Machado, A . M e Souza, M. P.R. (Org.) (2004). Psicologia Escolar:
em busca de novos rumos. S. P. Casa do Psicólogo, 4ª.
Ed.
Saviani, D. Escolar e Democracia (1986). São Paulo, Cortez.
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