O
que pensam professores sobre a Progressão Continuada? Lygia de Sousa Viégas (Universidade de São
Paulo) lyoviegas@uol.com.br
Diz
uma professora:"Estou deixando de ser uma professora digna.
Não importa o que eu faça, o aluno passa. Meu trabalho
não vale nada."
A
última disputa eleitoral ao governo do Estado de São
Paulo, em 2002, trouxe à tona uma polêmica que desde
1998 envolve quem freqüenta sua escola: a progressão
continuada, política educacional implantada na primeira gestão
Covas-Alckmin (PSDB), que organiza o ensino público fundamental
em dois ciclos de quatro anos cada, nos quais não há
reprovação do aluno (outros Estados e municípios
brasileiros, dirigidos por outros partidos políticos, além
de outros países, também organizam o ensino em ciclos,
imprimindo mudanças na forma de implantação
e nas concepções políticas e educacionais que
a subjazem).
As críticas oficiais à reprovação focalizam
ora seus efeitos na auto-estima dos alunos, ora seu teor econômico,
esta certamente a mais enfatizada, quando a reprovação
é considerada um ralo pernicioso por onde se desperdiçam
preciosos recursos financeiros; a progressão continuada,
ao contrário, seria sua sensível otimização.
Esse grande valor dado à questão financeira revela
a influência da globalização da economia e do
neoliberalismo em muitas reformas educacionais.
Ao mesmo tempo em que a progressão continuada é apontada
como sinônimo de fim da seletividade da escola, o discurso
oficial afirma que a exclusão será mantida se não
houver a garantia de algumas condições, e entre elas
enfatiza uma mudança nas relações que produzem
a reprovação do aluno. Ora, se tal mudança
ocorresse, a progressão continuada não seria mais
necessária. Trata-se, pois, de uma política que ataca
o sintoma do fracasso escolar (denotado pelos índices de
retenção), mas que não enfrenta o que tem produzido
tal sintoma.
De fato, estatísticas atuais mostram aumento na aprovação
e queda na reprovação e evasão, dando a impressão
de que o problema da exclusão do aluno dentro da escola foi
resolvido. Esses números, que parecem novo "milagre
brasileiro" (agora não só econômico, mas
também educacional), no entanto, não revelam uma real
melhoria da escola. Em realidade, muitos alunos estão sendo
aprovados por decreto, ou seja, embora avancem pela escola, não
conseguem acompanhar as séries pelas quais sucessivamente
"passam". Se a democratização do ensino
tem representado, para os alunos, apenas a expansão de vagas
e o acesso às séries mais elevadas, à custa
da qualidade do ensino, para os professores, o suposto ideal democratizante
fica ainda mais diluído, dado seu tom autoritário,
apartados que foram do processo decisório e de implementação.
Por isso há oposição dos professores à
progressão continuada, o que chama a atenção
para os limites e possibilidades de engajamento. Encontros sistemáticos
meus com um grupo de professores revelou que a maioria não
discordava da necessidade de acabar com a exclusão escolar,
mas sim da forma adotada pelo Estado para tal fim (era um "assim
não" mais do que um "isso não").
O que parece contribuir para o histórico fracasso escolar
e que permaneceu nas escolas no contexto da progressão continuada
é o preconceito em relação aos alunos. A falta
de debate desse tema fica compreendida quando se nota que o próprio
Estado tem expectativas negativas acerca dos alunos pobres, descritos
como o lado ruim da sociedade, por serem filhos de famílias
desorganizadas e com vida cultural restrita, problemas de disciplina,
pouca higiene, violência e drogas. Esse, aliás, é
um dos poucos pontos em que o Estado e parte dos professores afinavam.
O enfrentamento do fracasso das escolas públicas paulistas,
no entanto, deve enfocar as relações que produzem
tal fracasso, bem como a valorização do professor,
o que significa melhorar sua formação, participação
e salário - atualmente aviltante -, questões que certamente
estiveram fora de foco nas gestões Covas-Alckmin.
Mas nada é mais revelador que a redação de
um aluno de 7a série, apresentada com muita angústia
pelos professores acompanhados:
"O natal e uma selebrasão do nacimento de jesus que
ser dounor um feriado que doda a familia se reune mais os amigos
e vais uma sei de natal que damos presendes e gaiamos presendes
istoramos japaem damos pregamo conversamos. E adoro o natal e muito
bom o natal selepamas o namento de jesus e fasemos festas. Mais
dem mais coisas soutamos, asedemos a missa. E muito bom. Mais que
eu me esquesa dambem dem o vamoso papai Noel um velhilho que trais
presente para todas griansas."
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