A Unidade Dialética entre Corpo e Mente na Obra Luriana: Implicações para a Educação Escolar e para a compreensão dos problemas de escolarização.

Silvana Calvo Tuleski
(Universidade Estadual de Maringá)
silvanatuleski@teracom.com.br

 

A presente pesquisa, de natureza conceitual, procurou compreender a obra de A. R. Luria (1902-1977) como determinada pela concretude de seu contexto histórico, isto é, a Rússia pós-revolucionária como marco inicial de seus estudos e pesquisas e, posteriormente, a União Soviética sob o regime stalinista. Para isso, foi realizada uma extensiva pesquisa das publicações deste autor, evidenciando a crescente sistematização dos conceitos e método para a compreensão da constituição da consciência humana, tomando-se por base seus fundamentos filosóficos e epistemológicos.


Ao longo do trabalho, os estudos de Luria foram organizados por etapas, que compreendem períodos distintos da produção do autor. A primeira etapa de sua produção corresponde à época que antecede a sua associação com Vigotski, cujas produções sofrem grande influência da Psicologia Ocidental, numa tentativa de uni-la aos preceitos marxistas. A segunda etapa corresponde ao período que Luria, Vigotski e Leontiev constituem a Troika e que procuram, por meio de inúmeras pesquisas relacionadas ao desenvolvimento filogenético quanto ontogenético humano, constituir a base da Psicologia Histórico-Cultural, isto é, de uma psicologia pautada pelo método materialista histórico e dialético. A terceira etapa de sua produção corresponde ao período que sucede a morte de Vigotski, em que aparentemente parece haver um redirecionamento de suas pesquisas durante o stalinismo, que o faz concentrar-se mais na área da neuropsicologia.


Este último período da produção luriana, ao longo da pesquisa, precisou ser divido em duas fases, pois se constituem em momentos distintos de sua produção em conseqüência de fatores políticos e econômicos da antiga União Soviética. A primeira etapa deste período engloba as décadas de 1930, 1940 e 1950, momento que Luria se vê obrigado a utilizar de expedientes lingüísticos como a adoção “superficial” de terminologias pavlovianas em suas produções para poder continuar suas pesquisas, mas deixando subentendido seus pressupostos vigotskianos. A segunda etapa abrange as décadas de 1960 e 1970, que se caracterizam pela crescente abertura política na União Soviética a partir da morte de Stálin e com isso as obras de Vigotski passam a ser autorizadas, o que vai dar o tom das publicações e novas edições de diversas pesquisas de Luria, que passam a explicitar a base marxista e vigotskiana que precisou ser encoberta por 30 anos.


Do levantamento e historicização realizado da obra luriana alguns pontos puderam ser destacados como: a observação que as obras de Luria mais conhecidas no Ocidente, quando desligadas de seus fundamentos marxistas, acabam por dar base a apropriações indevidas de seus conceitos e associações a autores cuja base epistemológica é contrária; que apenas por meio do resgate da obra luriana em seu conjunto e de seus fundamentos marxistas há a possibilidade de compreensão do funcionamento cerebral como materialização das funções psicológicas superiores, de origem cultural, opondo-se ao reducionismo biológico ou subjetivo, hegemônico na atualidade.


Do exposto algumas conclusões podem ser destacadas como o fato de Luria ter dado continuidade aos pressupostos vigotskianos em suas pesquisas sobre o funcionamento cerebral e suas patologias, a despeito do acirramento do “stalinismo” na União Soviética após a morte de Vigotski, em 1934, superando a compreensão do homem como mais uma espécie sujeita, em seu desenvolvimento, às condições de maturação de seu organismo biológico, em direção a uma nova forma de entendimento do desenvolvimento e aprendizagem humanos, como um vir-a-ser. Para ele, quanto maior a complexidade das relações sociais, mais imprescindível é a educação sistematizada em dois sentidos: como garantia de continuidade e desenvolvimento do processo de humanização e como possibilidade de alteração ou superação dos entraves que impedem que este processo se dê em todos os indivíduos no interior da sociedade.


Baseando-se em Vigostski, também postulou que a consciência é a “vida tornada consciente” e que, portanto, não são os processos internos nas estruturas receptoras que se refletem na consciência, mas é o mundo exterior que sempre se reflete nela. Desta forma, a “arquitetura” dos sistemas funcionais cerebrais subjacentes, que possibilitam o reflexo consciente da realidade não permanece constante ao longo do desenvolvimento, isto é, não é estática, mas justamente é no e pelo reflexo da realidade, entendido aqui como processo, que se constituem as formas mais complexas do psiquismo humano, suas ligações funcionais.


Entende-se, portanto, que quando a obra de Luria é tomada em sua totalidade e historicidade suas contribuições para a atualidade no sentido de superar as compreensões organicistas e biologizantes existentes no âmbito da Psicologia e da Educação ficam evidentes, pois afirma a unidade dialética corpo/mente, indivíduo/sociedade que se dá por meio do trabalho ou da atividade humana, o que permite entender os problemas de escolarização como constituídos historicamente, indicando enfrentamentos práticos para a crescente patologização dos indivíduos na escola.

 

Referências:

TULESKI, Silvana Calvo. A Unidade Dialética entre Corpo e Mente na Obra Luriana: Implicações para a Educação Escolar e para a compreensão dos problemas de escolarização. Tese de Doutorado, Universidade Estadual Paulista, UNESP/Araraquara, 2007, p. 363.
Orientador: Newton Duarte – UNESP - Araraquara







 
     

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