Contribuições
da Psicologia Sócio-Histórica à Psicologia
Escolar e Educacional: um estudo das publicações da
ANPEd e da ANPEPP (2000-2005)
Christiane Jacqueline Magaly Ramos
(Universidade São Marcos) chrisjacqueline@hotmail.com
A
Psicologia Escolar e Educacional é uma área de pesquisa
teórica e prática que tem contribuído com as
questões educacionais há mais de um século,
tendo como base o apoio de diferentes referenciais da Psicologia.
Constatamos que a partir da década de 1980 a Psicologia Histórico-Cultural
tem se inserido nessa área com expressiva relevância.
Para
tanto, buscamos, por meio de uma pesquisa de cunho bibliográfico,
investigar nas publicações realizadas por pesquisadores
da psicologia no âmbito da Psicologia Escolar e Educacional,
quais são as contribuições que a psicologia
histórico-cultural ou sócio-histórica tem proporcionado
a essa área no que tange aos processos educativos. Contudo,
vale ressaltar que os dados apresentados neste momento representam
apenas parte de uma pesquisa mais ampla.
Optou-se
durante a pesquisa pela escolha de duas associações
que são significativas nas áreas da Psicologia e da
Educação e consideradas representativas no âmbito
acadêmico e científico de programas de pós-graduação:
a ANPEd (Associação Nacional de Pós-Graduação
e Pesquisa em Educação) e a ANPEPP (Associação
Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia).
Após
a escolha das associações, selecionamos quais eram
os grupos da ANPEd e da ANPEPP que faziam referência às
temáticas educacionais e que tinham como base a perspectiva
histórico-cultural.
Identificamos
na ANPEd o Grupo da Psicologia da Educação - GT 20
e na ANPEPP cinco grupos: Psicologia Escolar / Educacional; Desenvolvimento
e Educação na Perspectiva Sociocultural; Contextos
Sociais de Desenvolvimento: Aspectos Evolutivos e Culturais; A Psicologia
Sócio-Histórica e o Contexto Brasileiro de Desigualdade
Social e Psicologia da Educação Matemática.
Para
a organização da análise dos dados foi utilizada
a técnica de análise de conteúdo elaborada
por Laurence Bardin (1977). Esta organização compreende
três fases: a pré-análise, a exploração
do material e o tratamento dos resultados, a inferência, e
a interpretação.
Na
ANPEPP, durante o período de 2000 a 2005, ou seja, nos três
Simpósios realizados foi possível destacar cento e
vinte e três trabalhos (N=123), sendo que oitenta e um (N=
81) versavam sobre a área da Psicologia Escolar e Educacional,
dos quais vinte e um (N=21) adotavam como referencial a abordagem
histórico-cultural. A seguir encontra-se a tabela que explicita
os Simpósios, o período, os trabalhos publicados,
os trabalhos que se referem à área da Psicologia Escolar
e Educacional e quais são os trabalhos em que há a
presença da psicologia histórico-cultural ou sócio-histórica.
Com
base nos vinte e um trabalhos selecionados da ANPEPP procedeu-se
à leitura dos resumos e foi possível elaborar oito
categorias temáticas: a) mediação do professor;
b) natureza do processo de desenvolvimento humano; c) formação
do psicólogo escolar, d) mediação tecnológica;
e) política educacional; f) apropriação da
linguagem; g) sentido da atividade cotidiana; h) método na
Psicologia.
Na
ANPEd, o levantamento bibliográfico possibilitou localizar,
nas Reuniões Científicas, entre o período de
2000 a 2005, cento e dezesseis trabalhos publicados (N=116), dos
quais trinta e três (N=33) adotavam a abordagem da perspectiva
histórico-cultural. A tabela a seguir permite uma visualização
mais detalhada dos resultados encontrados.
A partir dos trinta e três trabalhos selecionados
para a pré-análise, procedeu-se à leitura em
busca de palavras-chave que identificassem quais eram os processos
a que cada texto dava ênfase. Assim sendo, a análise
dos textos possibilitou a elaboração de nove categorias
temáticas, a saber: a) apropriação da linguagem;
b) mediação do professor; c) mediação
tecnológica; d) sentido do trabalho docente; e) dinâmicas
das relações interpessoais, conflitos e valores; f)
formação de professores; g) natureza do processo de
desenvolvimento; h) psicologia da educação e pensamento
crítico: subjetividade e questões culturais; i) fundamentos
da teoria.
Em
seguida, foi desenvolvida uma ficha analítica, cujo objetivo
era responder às perguntas norteadoras da pesquisa, a saber:
Como a psicologia sócio-histórica é entendida
nos vários trabalhos pesquisados? Como a psicologia sócio-histórica
se articula com a análise de processos educacionais, quer
nas pesquisas de cunho teórico quer nas pesquisas de campo?
A
ficha analítica foi desmembrada em duas partes. A primeira
composta pelas seguintes informações: o título,
o autor, a identificação da Reunião Científica,
o ano, a categoria a qual o texto foi submetido, a denominação
atribuída à abordagem, como é entendida a abordagem,
os autores de base da abordagem, os principais conceitos teóricos
que referendam a abordagem e os principais conceitos de outras abordagens.
A segunda buscou os seguintes elementos: o tema, o problema, o objetivo,
a natureza do trabalho, os procedimentos metodológicos e
as considerações.
A
pesquisa revelou, em relação às duas associações,
aspectos distintos ou diferenciados, contudo ambas deram destaque
aos processos educativos, em especial, na categoria mediação
do professor, em que se dá importância ao papel desempenhado
na mediação do conhecimento, na transladação
dos conceitos espontâneos para os conceitos científicos,
no papel ativo do professor ao longo do processo de ensino-aprendizagem,
na relação processual entre o professor e a classe
de aceleração e no papel da escola enquanto local
privilegiado para a apropriação do conhecimento.
Também
foi observado que a natureza do processo de desenvolvimento é
revelada como um processo contínuo em que se leva em consideração
os contextos histórico e social. Contudo, tal processo não
é compreendido como um caminho reto, de mudanças naturais,
pelo contrário, é pautado por conflitos e saltos qualitativos.
Considera-se ainda que seja possível romper com o determinismo
biológico, ou seja, de visão naturalista, pois se
entende que o homem constitui-se historicamente.
Assim
foi possível apreender dos textos analisados que o ser humano
é visto como um ser social e concreto, sujeito interativo
que se constitui na relação com o meio, sempre mediado
pelo outro, e também que por meio dessas relações
é possível o indivíduo se humanizar.
Outro
aspecto importante em relação aos textos selecionados
na ANPEd, é a grande quantidade de referências a autores
estrangeiros, entre eles Vygotsky, o autor que aparece em todos
os textos analisados, e Luria, Davydov, Wertsch, Leontiev. Há
também referências a autores brasileiros que, do mesmo
modo que os estrangeiros anteriormente citados têm referendado
a psicologia histórico-cultural, o que nos faz compreender
que esta abordagem tem se expandido na área da Psicologia
Escolar e Educacional.
Na
ANPEd foi ainda possível identificar uma articulação
entre a psicologia e a educação por meio dos conceitos
localizados nos trabalhos, a saber: alfabetização,
escrita, funções psíquicas superiores, memória,
consciência, atividade, mediação, processos
de internalização, signos, palavra, fala oral e fala
interior, significado, sentido, aprendizagem e desenvolvimento,
zona de desenvolvimento proximal, conceitos científicos e
conceitos cotidianos, pensamento, linguagem, entre outros.
Referências:
ASSOCIAÇÃO
NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA,
VIII Simpósio Brasileiro de Pesquisa e Intercâmbio
Científico, 2000, Serra Negra. Anais. Campinas: Editora Átomo
e Alínea, 24 a 27 de maio. p. 46-53; 108-113.
ASSOCIAÇÃO
NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA,
IX Simpósio Brasileiro de Pesquisa e Intercâmbio Científico,
2002, Águas de Lindóia. Anais. Campinas: Editora Átomo
e Alínea, 24 a 28 de maio. p. 52-61; 170-176; 289-292.
ASSOCIAÇÃO
NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA,
IX Simpósio Brasileiro de Pesquisa e Intercâmbio Científico,
2004, Aracruz. Anais. Campinas: Editora Átomo e Alínea,
24 a 28 de maio. p. 20-24; 46-49; 58-63; 148-154.
ASSOCIAÇÃO
NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO,
Reunião Anual. Disponível em <http://www.anped.org.br>.
Acesso em: 10 de out. 2005.
BARDIN,
Laurence. Organização da Análise. In: BARDIN,
Laurence. Análise de Conteúdo. Tradução:
Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Título original:
L’Analyse de Contenu. Lisboa. Edições 70, 1995.
P. 95-115.
Orientadora: Marisa Irene Siqueira Castanho
– Universidade São Marcos
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e Educacional.
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