O
Papel Do Diretor Escolar Na Implantação De Uma Cultura
Educacional Inclusiva A Partir De Um Enfoque Sócio-Histórico
Claudia Lopes da Silva
Maria Isabel da Silva Leme (orientadora)
(Instituto de Psicologia – USP) daminhaaldeia@yahoo.com.br belleme@usp.br
Esta
pesquisa buscou conhecer o papel do diretor escolar na implantação
de uma cultura inclusiva na escola. Partiu-se do princípio
que o diretor escolar é uma figura fortemente influente na
organização da escola, não somente nos aspectos
físicos e administrativos, mas também no clima escolar.
Esses aspectos contribuiriam em conjunto para a constituição
de uma cultura escolar específica, um “conjunto de
fatores sociais, culturais, psicológicos que influenciam
os modos de agir da organização como um todo e o comportamento
das pessoas em particular” (Libâneo, 2001).
Considerou-se que a opinião pessoal, aspirações,
atitudes, concepção de educação e compromisso
ético profissional assumido, ou seja, os aspectos idiossincráticos
do diretor escolar, influenciam de maneira importante a forma como
se constitui a cultura escolar, facilitando ou dificultando a inclusão
de alunos com deficiência, devido à liderança
e autoridade ligadas ao papel central que o diretor exerce na instituição
escolar. Também se relaciona com as dificuldades que a democratização
dos processos de gestão escolar encontra para uma atuação
efetiva, nos casos de gestões mais centralizadoras, onde
a palavra final em muitas decisões acaba sendo do diretor,
deixando em segundo plano as decisões tomadas pelo conjunto
da escola. Daí também se propôs que, quanto
mais democrática for a gestão escolar, mais coletivas
ficam as decisões acerca da implantação de
uma cultura inclusiva, portanto menos subordinadas à decisão
pessoal do diretor. Tal cultura estará comprometida com os
ideais de escola para todos, o que inclui alunos com necessidades
educacionais.
Por outro lado, se o diretor tem como meta a implantação
de uma cultura inclusiva, suas ações serão
decisivas para isso, enquanto um articulador do projeto pedagógico
sobre o qual deve estar apoiado o projeto da escola tornar-se inclusiva.
O enfoque teórico utilizado foi a psicologia histórico-cultural
de Vigotski, particularmente os trabalhos da defectologia (Vygotski,
1929). Essa escolha deveu-se ao fato desse autor atribuir importância
fundamental ao fator socializador que o contexto exerce na formação
do indivíduo. A transmissão da cultura acumulada historicamente
às novas gerações não se limitava a
um mero fator do desenvolvimento humano para Vigotski, mas constituía
seu fator principal (Duarte, 2000). A condição de
incompletude em que um ser humano nasce aponta para a importância
categórica de pertencer à cultura humana como condição
de sobrevivência. Ser cuidado pelos outros humanos e por eles
inserido na cultura faz com que o indivíduo viva e complete
seu desenvolvimento. Assim, não há outra forma de
sobreviver que não seja participando de uma cultura (Charlot,
2000). Como estar na escola é fundamental em uma sociedade
escolarizada como a atual, em que a escola é a forma principal
assumida pela educação (Saviani, 2003), considerou-se
a escolarização como uma forma de humanização.
O conceito de ambiente escolar inclusivo foi destacado como sendo
“um ambiente de relações humanas que seja continente
e, nesse sentido, esteja aberto à consideração
das necessidades de todos” (Sekkel, 2003). Assim, ao invés
de focar-se especificamente nas necessidades individuais de cada
aluno – o que, aliás, constitui-se tradicionalmente
como uma demanda feita ao psicólogo escolar, com objetivo
adaptativo –, defende-se a construção de um
ambiente inclusivo na escola, que pode abarcar tanto aspectos arquitetônicos
de acessibilidade quanto o projeto político pedagógico,
prevendo a flexibilidade curricular para atender a todos os alunos.
A pesquisa foi delineada como um estudo de caso. Foi entrevistada
uma diretora escolar de uma escola da rede municipal de Ensino Fundamental
I numa cidade da região metropolitana do estado de São
Paulo. Na prática desta diretora foram identificadas algumas
atitudes que têm contribuído para a implantação
de uma cultura inclusiva na escola, como a divisão de responsabilidade
acerca da inclusão escolar entre todos os profissionais da
escola, as decisões debatidas no grupo de professores quanto
às necessidades educacionais dos alunos, as ações
de informação da comunidade e dos pais quanto à
função inclusiva da escola, cuidando para evitar atitudes
discriminatórias. Assim, a cultura escolar que foi possível
perceber no discurso da diretora é a de uma escola que busca
a ação coletiva como uma forma de operar nas diferentes
esferas de atuação, seja pedagógica, administrativa
ou das relações com a comunidade. As questões
pedagógicas preponderam sobre as administrativas, indicando
uma concepção de aprendizagem mais voltada para a
função educadora da escola, como apontado por Saviani
(2000), ainda que esta postura da diretora conflite em muitos momentos
com as exigências burocráticas do sistema educacional.
A democratização da gestão e a educação
inclusiva também se configuram como estreitamente relacionadas,
sugerindo que uma escola inclusiva é, antes de tudo, uma
escola democrática.
Referências
Charlot,
B. (2000) Da relação com o saber: elementos para uma
teoria (pp. 51-76). Porto Alegre: Artes Médicas Sul.
Duarte, N. (2000) A anatomia do homem é a chave da anatomia
do macaco: a dialética em Vigotski e em Marx e a questão
do saber objetivo na educação escolar. Educação
e Sociedade 21 (71), 79-115.
Libâneo, J. C. (2001) Organização e gestão
da escola: teoria e prática. Goiânia: Alternativa (pp.
31-186).
Saviani, D. (2000) Papel do diretor de escola numa sociedade em
crise. Em Saviani, D. Educação: do senso comum à
consciência filosófica. Campinas: Autores Associados
(pp. 207-210).
Saviani, D. (2003) Pedagogia histórico-crítica: primeiras
aproximações. Campinas: Autores Associados (pp. 76-77).
Sekkel, M. C. (2003) A construção de um ambiente inclusivo
na educação infantil: relato e reflexão sobre
uma experiência. Tese de doutorado. Instituto de Psicologia
da Universidade de São Paulo, São Paulo-SP.
Vygotski, L. S. (1929). Los problemas fundamentales de la defefectología
contemporánea. Em Vygotski, L. S. Fundamentos de defectología.
Obras escogidas (Vol. V, pp. 11-39).
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