Os
Serviços de Saúde e a Queixa Escolar: Práticas
e Concepções dos Psicólogos Viviane Prado Buiatti Marçal
Silvia Maria Cintra da Silva
(Universidade Federal de Uberlândia) vivimarcal@terra.com.br silvia@ufu.br
Diversos
estudos revelam que 50 a 70% das crianças e adolescentes
encaminhados aos serviços públicos de saúde
têm como queixa dificuldades de aprendizagem ou problemas
de comportamento na sala de aula ou fora dela. (Patto, 1990; Souza,
1996; Machado & Souza, 1996; Silva, 2002). O que se tem percebido
é que os profissionais que atuam nos serviços públicos
de Saúde Mental, ao receberem estes encaminhamentos, ou os
engavetam, considerando-se incapazes para atender esta demanda,
ou usam procedimentos diagnósticos semelhantes ou idênticos
para todas as crianças que procuram o setor atendimento psicológico,
independentemente da especificidade da queixa (Freller, 1999).
Neste sentido, é preciso repensar a forma de avaliação
das crianças com queixas escolares, inserindo a escola no
processo, pois, conforme ressalta Souza (1996; 1997), várias
pesquisas constataram a presença maciça de queixa
escolar nos atendimentos psicológicos. A escola, as relações
institucionais onde são produzidas as chamadas “dificuldades
de aprendizagem” muitas vezes não são abordadas
e de acordo com Souza (1996, p. 220), essa é uma das mais
sérias lacunas na formação do psicólogo
atualmente. As questões escolares são apresentadas,
quando muito, nas disciplinas de Psicologia Escolar, o que demonstra
falta de consenso e interligação na formação
profissional entre as áreas que compõem os currículos
de psicologia. Em contramão percebemos que essa biologização
da sociedade e isenção de responsabilidades trazem
como conseqüências o sofrimento para a criança,
o rótulo, a estigmatização, a introjeção
da doença, entre outras.
Considerando esses aspectos levantados por diversos autores sobre
a queixa escolar, questionamos como de fato esta demanda estaria
sendo atendida pelos psicólogos nos ambulatórios.
Nesta perspectiva, a pesquisa realizada por nós, teve por
objetivo primordial investigar e compreender como os psicólogos
que atuam em ambulatórios da rede pública de Saúde
de uma cidade mineira de médio porte lidam com a demanda
de crianças com queixas escolares que procuram o setor de
psicologia. E mais, quais as suas concepções, ações,
o que sabem, sentem, pensam e dizem sobre esta clientela.
O foco da nossa pesquisa são os psicólogos que se
encontram nos ambulatórios, assim a investigação
ateve-se a estes profissionais. Com dezesseis participantes, o estudo
foi desenvolvido durante os anos de 2003 e 2004. A análise
qualitativa dos dados implicou o trabalho minucioso com todo o material
obtido durante a pesquisa. Para obtenção dos dados
foi realizada uma entrevista individual semi-dirigida, gravada em
áudio, com todos os psicólogos, orientada por um roteiro
com questões abertas. A partir da transcrição
das entrevistas na íntegra, procedemos a uma leitura analítica
de cada texto, e então selecionamos trechos que entendíamos
sintetizar as falas apreendidas. Neste sentido, efetuamos recortes
em todo o material obtido, extraindo o máximo de informações
que pudessem dialogar com os nossos questionamentos propostos na
pesquisa, além de outras perguntas que foram suscitadas no
processo de análise, quando buscamos a interlocução
entre os dados e a literatura. Também foi realizado um levantamento
dos prontuários de crianças encaminhadas ao setor
de psicologia com queixas escolares, para a verificação
dos procedimentos efetuados pelos profissionais e para dar mais
consistência à análise.
Percebemos na análise das entrevistas que as falas se repetem,
parecendo compor um discurso único, em catorze respostas,
no item referente ao psicodiagnóstico; há uma tentativa
de verificar o que existe "por de trás" da queixa,
e detectar se é um problema de ordem emocional ou se é
uma questão escolar. Essa cisão, problema emocional
x problema escolar, é muito forte, e o ambulatório
faz essa diferenciação por entender que o setor de
saúde mental deve responsabilizar-se pelo atendimento clínico,
que é oferecido à clientela com distúrbios
de ordem emocional caracterizados como casos graves, ou seja, aqueles
pacientes diagnosticados como neuróticos graves ou psicóticos.
Quatro das entrevistadas disseram que não sabem o que fazer
com essa demanda que envolve problemas de aprendizagem, pois faltam
materiais para realizar uma avaliação nesse sentido.
Esses materiais incluem brinquedos, testes, materiais pedagógicos
e jogos. Contudo, no geral, observa-se uma preocupação
das psicólogas com relação ao atendimento das
crianças com queixas escolares e suas famílias. Em
todas as respostas, as profissionais queixam-se de que não
há na rede municipal um local para onde encaminhar essas
crianças para serem avaliadas por especialistas, já
que elas não se sentem instrumentalizadas para fazê-lo.
Na avaliação da criança, a análise das
entrevistas mostra alguns instrumentos utilizados pelas profissionais:
hora lúdica, desenho, testes, observação da
criança, observação da relação
da criança com a família no atendimento conjunto,
solicitação de que a criança leia e escreva,
observação do caderno da criança.
Como se vê, as relações da criança com
os processos de escolarização, as relações
institucionais, a vivência escolar, histórica e pedagógica
ficam de fora, não aparecem na avaliação realizada
pelas profissionais nos ambulatórios. O diagnóstico
se centra no aluno e na sua família, como apontam as discussões
empreendidas por vários autores e sobre as quais refletimos
neste trabalho (Moysés e Collares, 1992, 2000; Patto, 1990,
1992, 1997; Freller, 1997; Souza, 1996).
De acordo com o discurso das participantes da nossa pesquisa, parece
que ao longo do curso de graduação são pouco
abordados/estudados o papel do psicólogo dentro das instituições
públicas, o trabalho com a comunidade, técnicas utilizadas
com grupos etc. As mudanças são emergentes, haja vista
que este profissional tem sido amplamente procurado por diversas
instâncias para, por exemplo, compor equipes multidisciplinares
para o trabalho com a comunidade, no caso do programa de saúde
da família.
As entrevistadas desta pesquisa, de forma geral, enfatizam sua incapacidade
para o atendimento de crianças com queixas escolares. As
entrevistadas foram unânimes em afirmar a existência
de uma demanda de crianças com queixas escolares nos ambulatórios
de psicologia e que esta clientela é realmente grande. Quanto
à procedência desta demanda, a grande maioria das psicólogas
afirmou que as crianças são encaminhadas pelas escolas,
e por meio de relatórios que indicam a necessidade de atendimento
psicológico. Pode-se com isso, pressupor que os atendimentos
oferecidos, nesses casos, não estão sendo resolutos,
uma vez que é inviável atender, da forma como estão
sendo realizados, a toda a demanda da escola. Então, acreditamos
que é preciso buscar outras alternativas, em reflexões
junto à escola, para que a criança, a escola e a família
sejam atingidos, pois a queixa envolve todos estes segmentos.
Percebemos nas entrevistas que uma visão que tenta considerar
os determinantes sócio-históricos da queixa escolar,
as relações entre os aspectos da intra e intersubjetividade,
porém observa-se uma certa dificuldade em amarrar estes conceitos
com a prática.
Foram analisados os prontuários referentes ao período
de 2000 a 2004, totalizando 235 fichas correspondentes ao número
de crianças com queixas escolares atendidas pelo setor nesse
período. Observou-se que a grande maioria dos encaminhamentos
é feita pelas escolas; em segundo lugar, por pediatras; alguns
por neurologistas e outros médicos; em menor número
por escolas de ensino especial e outros especialistas como fonoaudiólogos,
assistentes sociais, e também pelo Conselho Tutelar. Na descrição
das queixas, a expressão "criança com dificuldade
de aprendizagem" é a mais usada no diagnóstico
dos problemas relacionados à escolarização;
aparecem também como dificuldades na leitura e escrita, problemas
com a matemática, dificuldades de atenção,
concentração, repetência.
Dessa forma, os resultados desta pesquisa e de outras aqui citadas,
a nosso ver, indicam a urgência da revisão curricular
dos cursos de formação de psicólogos, no sentido
de melhor instrumentalizar os profissionais egressos. Acreditamos
que mesmo que houvesse disponibilidade física e humana nos
ambulatórios para atender às solicitações
da escola, de atendimentos individualizados, isso não seria
a solução para essa questão. Faz-se necessário
mudar o enfoque na compreensão da queixa escolar que tem
sido direcionada às crianças e suas famílias
e buscar discutir e refletir acerca do modo como estas queixas são
geradas na instituição educacional e de que não
é o atendimento que irá resolvê-las, sendo fundamental
construir efetivamente uma parceria entre a saúde mental
e a educação.
REFERÊNCIAS:
Cabral, E.; Sawaya, S. (2001). Concepções e atuação
profissional diante das queixas escolares: os psicólogos
nos serviços de saúde. Estudos de Psicologia (Natal).
Vol. 6, p.143-155.
Freller, C.C. (1997). Crianças portadoras de queixa escolar:
reflexões sobre o atendimento psicológico. Em Machado,
A.M ; Souza, M.P. (Org.). Psicologia Escolar: em busca de novos
rumos. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Machado, A.M ; Souza, M.P.R. (1997). Psicologia Escolar: em busca
de Novos Rumos. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Moysés, M.A.A., Collares, C.A.L. (1992). A história
não contada dos distúrbios de aprendizagem. Cadernos
CEDES 28. Campinas, CEDES/Papirus, p. 31-47.
Morais, M.L e Souza, B.P (2000). Saúde e Educação:
muito prazer! Novos rumos no atendimento à queixa escolar.
São Paulo: Casa do Psicólogo.
Patto, M.H.S .(1990). A produção do fracasso escolar:
histórias de submissão e rebeldia. São Paulo:
Casa do Psicólogo.
Patto, M.H.S. (1992). A família pobre e a escola pública:
anotações sobre um desencontro. Psicologia USP- SP.
3 (1/2) p.107-121.
Souza, M.P.R. (1996). A queixa escolar e a formação
do psicólogo. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia,
Universidade de São Paulo.
Souza, M.P.R. (2000). A queixa escolar na formação
de psicólogos: desafios e perspectivas. Em: Tanamachi, E.
de R., Souza, M.P.R., Rocha, M. L (Org.). Psicologia e Educação:
desafios teóricos-práticos. São Paulo: Casa
do Psicólogo.
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