O Enfrentamento Do Fracasso Escolar Numa Escola Pública: Análise Crítica Na Perspectiva Do Cotidiano Escolar
Joseana Dalsan (Universidade de São Paulo)
jdalsan@yahoo.com


Ao analisarmos os dados da educação pública fundamental no Brasil vemos que a maioria dos alunos de 4a série não atinge um dos objetivos primordiais da escola: ler e escrever. Dados mais recentes do SAEB e da Prova Brasil confirmam essa afirmação. Mas como explicar esse quadro?


Historicamente o fracasso escolar, ou seja, altos índices de repetência, evasão, baixo rendimento escolar, vêm sendo atribuídos à indivíduos (alunos e suas famílias) problemáticos, advindos das classes populares, portadores de deficiências, dificuldades tanto físicas, cognitivas ou psicológicas, sociais ou culturais. A solução era encaminhar para diagnóstico aos profissionais da saúde, como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, entre outros, que deveriam encontrar no aluno a causa de seu não aprender.


A partir dos anos 90, um conjunto de estudos em Psicologia Escolar veio questionar essas explicações. Será que se a maioria dos alunos não estão sendo escolarizados seria à problemas individuais neles?


Um trabalho pioneiro de pesquisa intitulado “A produção do fracasso escolar: histórias de submissão e rebeldia” da Profa Dra Maria Helena de Souza Patto, do IPUSP, veio contradizer e propor que o fracasso escolar é produzido na complexidade das relações , concepções e práticas da instituição escolar no processo de escolarização dos alunos.


A pergunta a ser feita quando nos deparamos com um aluno com queixa escolar, deve ser modificada de: “por quê ele não aprende?”, que nos remete a buscar por uma resposta na natureza dessa criança, nos seus processos psíquicos, em seu desenvolvimento e dessa forma, buscaremos uma série de instrumentos com o objetivo de encontrar esse “porque”, como por exemplo, testes psicológicos, entrevistas com os pais, atendimentos individuais para procurar problemas no desenvolvimento da criança e na dinâmica familiar que possam esclarecer “porque” o aluno não aprende; para “quais situações e relações estabelecidas no cotidiano escolar, ou seja, dentro da escola, estariam produzindo dificuldades na escolarização desse aluno?”. Dessa forma, o foco de análise seria a escola, portanto, as relações que ocorrem dentro dela entre os agentes educadores e o aluno, a história escolar dele, a organização escolar, a relação da escola com os pais e deles com a instituição, as regras e normas explícitas e implícitas de funcionamento, as condições de trabalho existentes, as políticas públicas que atravessam a escola pública, dentre outros.


Achamos de grande contribuição científica verificar em campo, através da nossa pesquisa, se e como essas idéias chegaram e são compreendidas nas redes de educação após aproximadamente 17 anos de sua publicação e divulgação.


Fomos então buscar alguma rede que tivesse uma proposta local de enfrentamento do fracasso escolar na escola. Encontramos no interior de São Paulo, uma proposta de uma rede municipal de educação que merecia um olhar mais aprofundado.


O objetivo da pesquisa foi analisar o enfrentamento do fracasso escolar numa escola pública por meio da implementação de uma política pública em uma rede municipal de ensino que trouxe dois novos elementos: uma proposta de reorganização das “classes de aceleração” - grupos de apoio - e a contratação de um novo agente educacional: o psicopedagogo.


Nosso objeto de estudo foi a intervenção psicopedagógica realizada nos grupos de apoio pela psicopedagoga e os desdobramentos dessa ação no cotidianno escolar.


Para tal, utilizamos como metodologia de pesquisa qualitativa o estudo de caso, com o objetivo de aprofundar a análise, para possível e posteriores generalizações para outras realidades. Como instrumentos, entrevistas gravadas e transcritas, observações e documentos escolares. Participaram a secretária municipal de educação, e de uma mesma unidade escolar (considerada pela secretaria como a que melhor desenvolvia o projeto de intervenção psicopedagógica), as professoras das salas regulares, a coordenadora pedagógica, a psicopedagoga, a professora e as crianças dos grupos de apoio.


A anålise dos dados foi feita a partir da exaustiva leitura e releitura das transcrições e documentos, organização dos dados em temas, e a análise.


A nossa pesquisa se soma a alguns estudos realizados no campo da Psicologia Escolar Crítica, que não aceita como explicação para o grande número de alunos não escolarizados na escola pública a culpabilização preconceituosa e desumana, do aluno pobre e de sua família como responsáveis pela baixa qualidade de ensino oferecido às classes populares.


Como resultados obtivemos que há a manutenção do pensamento da atribuição das dificuldades escolares em parte à escola (ao “sistema”, ao professor “mal formado”) e em parte às famílias e aos alunos.


Os discursos aprensentam, de forma sutil, uma certa mudança: a escola está presente quando alguns professores dizem “quando a criança é trabalhada, ela melhora, aprende, mesmo que devagar”, mas ainda permanece algo fora da escola, quando mencionam que o não aprender acontece com as crianças que são provenientes de transferências da rede estadual, como se na rede municipal todos se escolarizassem.


Mas, se por um lado há uma movimentação no discurso, a questão da família desestruturada e desinteressada como culpada pelo fracasso escolar atribuído ao aluno, permanece intocada e forte. Ainda é a ela que se atribui grande parte das dificuldades escolares e emocionais que se refletem no não aprender da criança.


Há contradições também em algumas práticas escolares. Mesmo ocorrendo essa atribuição das causas às famílias, há uma mudança de atitude nesses professores pesquisados: eles ensinam e as crianças são vistas como capazes de aprender. E essas aprendem! Atribuímos esse fato também ao vínculo próximo que os agentes escolares tem com a escola: alguns moram no bairro (que é periférico e tem como moradores trabalhadores das classes populares), outros trabalham na escola desde a fundação, e todos tiveram como primeira opção de escolha esta unidade escolar.


Ligada à essa mudança, temos o psicopedagogo trazendo uma movimentação através da implementação de uma dúvida nas discussões com os professores nas capacitações que organiza: “essa criança tem dificuldade de aprendizagem (ou seja, algum problema emocional, no desenvolvimento, neurológico etc) ou um problema de ensinagem (do professor que não ensinou)?


Ao mesmo tempo que há um avanço na questão, pois torna menos linear a atribuição das causas ao aluno, transfere a responsabilidade a outro indivíduo: o professor como único responsável por ensinar. Ou seja, reduz a indivíduos a causa da baixa qualidade de ensino público.


Outro aspecto importante que a pesquisa trouxe foi a questão dos pais na escola. Eles só são “bem-vindos” quando atendem a uma convocação oficial da escola, ou seja, para reuniões fechadas, cobranças das mais variadas, para levar o filho ao serviço de saúde, para contribuir com algo material ou para o funcionamento da escola, para que tragam os alunos com a frequência esperada, limpos, vestidos e sem nenhum problema emocional, físico, social ou familiar pra a escola.


Essa expectativa dos educadores em relação aos pais é impossível de ser concretizada, visto que as pessoas, independentemente da classe social, incluindo nós e eles, temos problemas de toda a sorte. A questão que se abre é: como a escola recebe e acolhe essas pessoas comuns, humanas?


Essa relação com uma família idealizada e fictícia, faz com que os pais não participem e não se sintam parceiros da escola na escolarização dos filhos. Eles não estão autorizados para isso diante da escola.


As crianças que são encaixadas na categoria “dificuldade de aprendizagem” continuam sendo encaminhadas para a rede de saúde para diagnosticar o porque não aprendem.


Concluindo, apesar de algumas movimentações em discursos e práticas escolares, o quadro ainda continua o mesmo de duas décadas atrás. Como mudar esse quadro ainda é o nosso maior desafio.






 
     

Copyright 2007. Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional.
Todos os direitos reservados. VER CRÉDITOS .