Modalidades,
Concepções e Práticas dos Registros Escolares Gustavo Giolo Valentim e Marilene Proença Rebello
de Souza (Instituto de Psicologia) ggiolo@hotmail.com
mprdsouz@usp.br
Pesquisas
na área de Psicologia Escolar e Educacional vêm se
diferenciando da tendência hegemônica, caracterizada
pela procura do locus dos problemas de aprendizagem na criança,
em sua família ou em suas condições de vida.
As pesquisas recentes buscam questionar tais problemas e suas soluções,
pautando-se na análise de todo o processo de escolarização.
O desvelamento da vida diária escolar faz aflorar a complexidade
das relações envolvidas no processo de ensino-aprendizagem.
Essa mudança de foco na busca do entendimento de um insucesso
no campo educacional, visando o levantamento das situações
e relações da vida diária escolar enquanto
produtoras do não-aprendizado e/ou de comportamentos indesejáveis,
exige uma mudança de instrumentos utilizados para compreender
esse campo de ações. Dentro desta perspectiva, faz-se
notar a enorme importância da história escolar da criança,
como esta se construiu nas relações com professores,
corpo diretivo e colegas (SOUZA, 2002).
O objetivo deste trabalho, oriundo de uma pesquisa de iniciação
científica com o financiamento da FAPESP, foi o estudo da
história escolar de alunos das séries iniciais do
ensino fundamental tal como esta é registrada pela escola.
Para tanto, realizamos um levantamento das modalidades de registros
existentes em uma escola da rede estadual no município de
São Paulo. Por fim, analisamos seus conteúdos, visando
identificar o que embasa a produção dessa documentação,
as concepções de aprendizagem presentes no processo
pedagógico e, através de entrevistas com o corpo diretivo,
procuramos apreender os modos de utilização desses
registros na vida diária escolar. A metodologia escolhida
para a obtenção dos dados foi a investigação
qualitativa, tendo por base da análise documental a análise
de conteúdo tal como propõe Bardin (1977).
Realizamos o levantamento dos documentos escolares relativos a alunos
de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental, a saber:
a legislação estadual relativa à elaboração
de documentos oficiais; Fichas de Avaliação Individual
dos Alunos; Portifólios e o Caderno Volante.
A análise da legislação mostrou-nos que o único
instrumento de avaliação qualitativa do aluno vigente
tem origem na Deliberação CEE 11/96, portanto anterior
ao regime de Progressão Continuada. Entretanto, na Indicação
CEE 22/97, sobre a Deliberação CEE 09/97 que institui
a progressão continuada, vemos uma idéia de avaliação
preocupada com a possibilidade dos professores construírem
coletivamente novas formas de trabalho docente, saindo da avaliação
classificatória, que apenas verifica o aproveitamento escolar.
Propondo uma avaliação contínua e cumulativa,
pretende-se que esta se caracterize como uma avaliação
formativa, capaz de colocar, à disposição do
professor e da equipe escolar, informações mais precisas,
mais qualitativas sobre os processos de aprendizagem dos alunos.
Abre-se, portanto, com a progressão continuada, a necessidade
dos professores criarem novas formas de organização.
Porém, esta é apenas uma sugestão, uma análise
das conseqüências possíveis desta nova visão
de avaliação.
A análise das Fichas de Avaliação Individual
demonstrou que a avaliação feita pelos professores
a respeito dos alunos não condiz com os preceitos da pedagogia
construtivista, base do projeto político-pedagógico
da escola. Ao invés de registrar a psicogênese da língua
escrita como processo, os conceitos são utilizados como diagnóstico
de aprendizagens, sendo classificatórios de qual fase de
alfabetização se encontram os alunos. Identificamos
seis temas principais no discurso dos professores: Diagnóstico,
Técnico-Descritivo, Habilidades e Competências, Padronizações,
Conduta e Aprendizagem como Processo. Cada tema contém diferentes
concepções de aprendizagem e de desenvolvimento, expressando
em seu texto a coexistência dos diversos movimentos pedagógicos
descritos por Saviani (2005), como constituintes da educação
paulista: o Tradicional, o Escolanovista e o Tecnicista. Apesar
deste uso concomitante de conceitos provenientes de teorias diferentes
e elucidação de aspectos diversos do aluno, uma constante
a todos (menos claramente no tema Aprendizagem como Processo) nos
chamou a atenção: a preocupação em atingir
objetivos educacionais, entendidos como comportamentos decorrentes
do processo de ensino-aprendizagem, característica principal
do movimento pedagógico caracterizado por Saviani (2005)
como tecnicista.
Sobre os registros não oficiais, em entrevistas com o corpo
diretivo a respeito das práticas de avaliação
e registro desta instituição, vimos que o não-aprendizado,
nesta escola, é analisado e trabalhado no coletivo, constituindo-se
de fato uma questão institucional ou pedagógica. A
principal característica dos registros inventados pela escola
é de servirem de políticas de desconstrução
da comum culpabilização dos alunos e dos professores
das séries anteriores pelo não-aprendizado. Culpabilização
esta comum na prática cotidiana escolar pela qual crianças,
professores e pais vão se tornando culpados por um processo
no qual todos são vítimas.
Segundo Machado (1996), há um avanço quando se tem
a possibilidade de perceber os problemas que aparecem nas crianças
como sintomas do próprio funcionamento escolar. Essa forma
de pensar mantém a crença de haver algo errado com
a criança, embora as causas não estejam mais nela.
Dessa forma, existiriam ambientes opressores que prejudicariam a
expressão e o desenvolvimento da criança, e existiriam
ambientes mais favoráveis para o crescimento, nos quais uma
ou outra criança revelaria dificuldades.
A prática dos registros não-oficiais está em
confluência com este pensamento de implicação
do contexto na produção de aprendizagem. Nesta escola,
criaram-se instrumentos para arquivo das atividades realizadas pelo
professor, efetuando uma análise destas, constantemente.
Com estes instrumentos o corpo diretivo analisa junto com os professores
como estão evoluindo os alunos; qual a qualidade e variedade
de suas atividades; o que pode estar sendo ineficiente; o que é
eficiente; possibilidades de novas atividades; organização
e dedicação dos professores às suas práticas
pedagógicas, etc. O não-aprendizado, quando ocorre,
é colocado como um problema institucional ou pedagógico.
Por meio destes modos não-oficiais de registro é criado
um coletivo responsável pela aprendizagem do aluno. Um coletivo
que discute quais os problemas de escolarização encontrados,
quais os objetivos que não estão sendo alcançados
e, levando em conta a história pedagógica pela qual
passou o aluno, estabelece novas práticas a serem realizadas.
Insistir na aprendizagem do aluno é apostar e exigir conhecimento
técnico dos profissionais envolvidos. É acreditar
que isto não vai ser bom somente para criança, mas
sim para todos aqueles que passam a ter a possibilidade de efetuar
uma forma de ser mais coletiva, menos egoísta (MACHADO, 1996).
A obrigatoriedade de preenchimento de instrumentos que deixarão
registradas as atividades que os professores realizam, permite que
estes reavaliem constantemente suas práticas, instigando
o exercício de seus conhecimentos. É também
a possibilidade dos docentes porem seu trabalho a luz dos olhos
de colegas, desenvolvendo em conjunto as práticas pedagógicas
realizadas nesta escola. Desenvolver junto, não no sentido
de realizar o mesmo, mas no sentido de que mesmo nas atividades
planejadas e desenvolvidas por cada professor dentro de sua sala
de aula há a participação e referência
do coletivo dos professores.
Outro aspecto importante é que este acompanhamento constante
do aprendizado do aluno contribui para evitar a cristalização
de seu aprender. Encontramos, nos diagnósticos realizados
nas Fichas de Avaliação Individual, generalizações
nas quais todos eram enquadrados. Segundo Machado (1996) a generalização
é uma tendência necessária do pensamento e da
ação na vida cotidiana. Mas, quando estas se cristalizam
em absolutos, constitui-se a alienação da vida cotidiana.
O indivíduo perde de vista as condições de
sua objetividade (MACHADO, 1996). Com o uso que nos foi relatado
do Portfólio, esta objetividade é exercitada em cada
reunião de conselho. O convocar do professor para a análise
de todo o processo de aprendizagem de seus alunos é mantê-lo
no movimento de apreensão real das singularidades de cada
aluno.
Os conteúdos das fichas revelaram um modo de avaliação
que mede o quanto os alunos estão aprendendo dentro de um
programa, estabelecido externamente à escola, tido como principal
objetivo da educação, sendo o professor um agente
que propicia modificações nos comportamentos dos alunos
em decorrência da aprendizagem. Notou-se, portanto, a permanência
do pensamento tecnicista em um sistema educacional que traz em sua
organização por ciclos uma proposta de revolução
em relação ao tecnicismo. No entanto, a abertura introduzida
pela progressão continuada à possibilidade de criação
de instrumentos de avaliação qualitativos propiciou
a esta escola encarar os problemas em relação à
aprendizagem, encontrados no seu cotidiano, como foco de desenvolvimento
de novas políticas, visando novas produções
mais satisfatórias em relação ao objetivo da
escola. Este constante exercício possibilitou a escola implicar-se
na resolução de seus próprios problemas, gerando
um coletivo responsável pela aprendizagem do aluno. Ao invés
de individualizar a avaliação contínua e cumulativa
e dispondo somente da recuperação, a necessidade de
reinvenção da avaliação em um sistema
em que é proibida a repetência dentro de cada ciclo
fez com que esta escola produzisse práticas desalienantes
com seu corpo docente, o que muitos trabalhos demonstram não
ser regra na maioria das instituições da rede pública
do estado. Consideramos, por fim, que as formas de apropriação
presentes na escola delimitam um campo de possibilidades em que
as finalidades postas para a ação pedagógica,
construídas coletivamente, são fundamentais para que
os alunos realmente se beneficiem do processo de escolarização.
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