Alunos
Copistas: Uma Análise Da Produção Do Fracasso
Escolar Giuliana Carmo Temple (Universidade Estadual de Londrina) gctemple@gmail.com
Esta
pesquisa teve o objetivo de investigar os processos de escolarização
de um grupo de crianças da terceira série do ensino
fundamental público, provenientes das classes populares,
com o intuito de ampliar o conhecimento no campo da Psicologia Escolar
e Educacional acerca da produção do fracasso escolar.
Para tanto, centramo-nos na compreensão e constatação
de um fenômeno presente no dia-a-dia do processo de aquisição
da linguagem escrita das crianças das séries iniciais
das escolas públicas paulistas. Trata-se do “aluno
copista”, ou seja, aquele aluno que somente copia as atividades
de escrita sem, no entanto, compreender de fato o sentido do que
está escrevendo. Os alunos copistas são aqueles que
não aprenderam a escrever, mas desenvolveram a habilidade
de copiar as atividades da lousa, dos livros e dos cadernos dos
colegas, entretanto não resolvem os problemas nem conseguem
ler aquilo que copiaram.
A justificativa da realização deste trabalho baseia-se
na importância da realização de pesquisas críticas
que investiguem a realidade escolar brasileira, a partir da compreensão
que os problemas de aprendizagem dizem respeito ao fracasso dos
processos de ensino-aprendizagem do cotidiano escolar.
Nosso posicionamento frente ao fracasso escolar, ao realizar este
trabalho, é muito claro: a escola é o lugar que deveria
socializar o conhecimento produzido historicamente pela humanidade,
mas que numa sociedade de classes deixa de cumprir seu papel social
porque reproduz as relações sociais de dominação
postas pelo sistema capitalista. O analfabetismo é entendido,
nesta perspectiva, como uma conseqüência lógica
de uma sociedade desigual e injusta e, não apenas o resultado
da falta de acesso à escola ou de problemas intrínsecos
aos sujeitos.
As discussões sobre os processos de ensino e aprendizagem
devem levar em conta as relações sociais presentes
no interior da escola. As escolas públicas, em sua maioria,
têm alunos provindos das camadas populares. Entretanto, muitos
ainda são os “mitos” sobre a aprendizagem destes
alunos. Os ideários psicológicos e pedagógicos
estão permeados de justificativas preconceituosas sobre porque
a população pobre não aprende. Ora afirma-se
que a responsabilidade é dos pais, por serem analfabetos,
trabalharem fora, não estimulam, têm pouco repertório;
ora afirma-se as crianças são as culpadas porque têm
problemas emocionais, não estão prontas ou não
querem aprender.
Primeiramente, devemos compreender que a linguagem escrita é
uma produção social e de domínio público.
Ela é usada para que as pessoas possam se comunicar, se expressar.
A escola é a responsável por ensinar às crianças
como utilizá-la adequadamente fora dela. É exatamente
porque a escola transformou um saber social em um saber guardado,
cheio de mistérios e inacessível à maior parte
da população, que a cada dia vemos com indignação
o crescente número do fracasso escolar, traduzido em evasão,
abandono, repetência, descrença no sistema de ensino,
culpabilização das famílias pobres e, acima
de tudo, crianças desiludidas e frustradas porque falharam
no que deveriam ter tido êxito.
Para estudar a apropriação da escrita numa perspectiva
histórico-cultural, foi necessário que nos apropriássemos
dos estudos realizados por Vigotski e seus colaboradores, em especial
Luria, que na década de 1920 pesquisou experimentalmente
os processos de simbolização da escrita nas crianças.
Nesta pesquisa, Luria descreve quatro estágios do desenvolvimento
da escrita na criança, comparando-os com o desenvolvimento
da escrita na humanidade. O autor também ressalta que a escrita
aparece de forma dialética, isto é, não segue
uma linha reta, crescendo e aperfeiçoando-se continuamente.
A compreensão do desenvolvimento da escrita de forma dialética
é de suma importância para os psicólogos que
trabalham com a abordagem histórico-cultural, uma vez sendo
respaldados pelo materialismo histórico dialético,
não cabe em nosso trabalho teorias psicológicas e
técnicas pedagógicas que compreendam o desenvolvimento
infantil e o processo de apropriação da escrita pela
via da lógica formal.
Visto que o objetivo desta pesquisa foi analisar como o fenômeno
do copismo se constituiu na vida escolar destes alunos e que sentido
a escrita adquiriu para este grupo de alunos copistas, a partir
de uma compreensão histórico-cultural da construção
do sentido, propusemo-nos a observar as práticas pedagógicas
referentes às solicitações de escrita no contexto
escolar, bem como realizar a reconstrução do percurso
escolar dos alunos copistas.
Utilizamos a abordagem etnográfica como perspectiva teórico-metodológica
no campo da psicologia da educação. Partimos de concepções
teóricas críticas no campo da Psicologia Escolar e
Educacional para entender a vida diária escolar desses alunos,
o contexto escolar em que tais situações de aprendizagem
são produzidas, e analisamos esta produção
à luz da concepção de Luria a respeito da apropriação
da escrita pela criança.
Durante o ano letivo de 2005, acompanhamos uma terceira série
do ensino fundamental estadual da cidade de Marília/SP, acompanhando
as atividades escolares de escrita de quatro alunos copistas. Realizamos
observações participantes na sala de aula, entrevistas
formais e informais com os alunos, professoras e diretora, bem como
a análise dos cadernos e materiais que os alunos utilizavam
em sala de aula, nos momentos de escrita.
A observação foi o instrumento mais utilizado para
o desenvolvimento da pesquisa e, o que mais forneceu elementos de
compreensão da realidade, devido à imersão
da pesquisadora no cotidiano da sala de aula, pois passamos muito
tempo convivendo com os alunos. Durante as observações
utilizávamos um diário de campo, no qual anotávamos
os principais acontecimentos, bem como as atividades postas na lousa.
Não havia uma seleção do que deveria ser anotado,
pois todo o contexto da sala de aula era importante para a pesquisa,
mas procurávamos nos deter nas relações estabelecidas
entre a professora e os alunos copistas e as atividades que esses
alunos realizavam ou não.
É importante salientar que o diário de campo era acessível
a todos os alunos, que todas as vezes que a pesquisadora estava
em sala de aula pediam para ler o que tinha sido escrito. Algumas
vezes, eles não entendiam a letra e pediam para que lêssemos,
o que era prontamente atendido. Possibilitar o acesso do diário
de campo aos alunos, copistas ou não, foi uma das formas
criadas para explicitar o papel da pesquisadora na sala de aula
e permitir que todos os alunos se sentissem sujeitos ativos e participantes
na pesquisa.
As entrevistas dividiram-se em formais e informais. As informais
foram feitas dentro da sala de aula ou nos corredores e pátios
com as crianças, as professoras e a diretora e, serviam para
esclarecer pontos que haviam ficado confusos para a pesquisadora
durante as observações, como dinâmica de funcionamento
da escola, das atividades de sala de aula e informações
sobre os alunos. As entrevistas formais foram feitas com os alunos
copistas em data e horário previamente combinados, com o
objetivo de reconstruir o percurso escolar destes alunos.
A análise dos cadernos escolares durante as aulas observadas
possibilitou verificar quais eram os momentos de cópia e
as produções independentes dos alunos copistas. Nem
todas as atividades colocadas na lousa eram copiadas. Na maioria
das vezes os alunos copiavam o cabeçalho e o começo
do exercício e logo paravam. Também analisamos os
materiais didáticos usados em sala de aula, em sua maioria
atividades em folhas soltas produzidas pela professora, como as
“cruzadinhas” e o “caça-palavras”.
A partir de algumas destas análises, comprovamos que os alunos
faziam cópias das atividades dos colegas, como por exemplo,
quando observamos um aluno realizando a cópia da colega e,
até a caligrafia era semelhante.
Dentre os aspectos analisados no processo de escolarização
dos alunos copistas estudados, destacamos:
a) A organização das atividades em
sala de aula: as observações da organização
das atividades pedagógicas foram realizadas em dias e horários
diferentes para que várias atividades pudessem ser acompanhadas;
o que nos possibilitou perceber praticas pedagógicas confusas,
quando diferentes atividades eram realizadas ao mesmo tempo; alunos
fazendo tarefas de algumas matérias e outros copiando novos
conteúdos da lousa. Em nenhum desses momentos de observação,
as atividades foram corrigidas pela professora com os alunos, explicando
o que deveria ter sido feito ou tirando dúvidas. A professora
também dava algumas atividades que chamava de “prova”,
para que os alunos ficassem em silêncio e ela pudesse fazer
outras coisas. Além disso, sempre foi constante a presença
de uma aluna ajudante, que passava diariamente as atividades na
lousa.
b) A presença de uma professora substituta: Importante
demonstrar este episódio interessante, pois na tarde em que
observei a atuação da professora substituta a dinâmica
de sala de aula mudou, atividades postas em lousa e sendo corrigidas
nos cadernos e lousa, explicação dos problemas e a
realização de uma atividade onde todos os alunos,
inclusive os copistas, puderam escrever, mesmo com ajuda, o nome
de uma figura na lousa. Essa atividade foi realizada quando contamos
para a professora sobre os objetivos da pesquisa.
c) As solicitações de escrita: No
contexto da sala de aula, muitos foram os momentos nos quais presenciamos
as solicitações de escrita, fosse nas atividades a
serem copiadas da lousa, fossem as atividades pedagógicas
produzidas pela professora, como as “cruzadinhas” e
os “caça-palavras”. Observamos que a produção
escrita é parte intrínseca do trabalho pedagógico,
é por meio dela que os sujeitos se comunicam neste ambiente
letrado. Além disso, uma das concepções de
apropriação da linguagem escrita presentes nos ideários
pedagógicos, postula que a repetição do exercício
da escrita possibilita a aquisição desta capacidade.
Desta forma, muita ênfase é dada neste tipo de atividade,
com o intuito de que os alunos aprendam a escrever.
d)
As práticas pedagógicas produzindo alunos copistas
e a identificação das marcas subjetivas: Em concordância
com o item anterior, observamos muitas práticas pedagógicas
solicitando que os alunos escrevessem. No contexto estudado, percebemos
que as orientações que fossem dadas pela professora
poderiam contribuir para a aquisição da linguagem
escrita por parte dos alunos copistas. Como encontramos uma realidade
bastante intrincada, pudemos observar o fenômeno da produção
e manutenção do copismo, já que os alunos copiavam
e não eram orientados na execução das atividades.
Desta forma, a cópia passou a ser um fim em si mesma, ou
seja, a cópia era a atividade esperada a ser realizada por
estes alunos. Ficou evidente o sofrimento produzido por este contexto
nas crianças, que expressavam sua dor chorando em sala de
aula ou se dizendo incapazes de aprender.
e)
O interesse dos alunos copistas pelas atividades pedagógicas:
Apesar das explicações do senso comum sobre o fenômeno
do copismo culpabilizarem as crianças por não aprenderem
a ler e escrever, justificando sua falta de interesse pelos conteúdos
escolares, os alunos copistas pesquisados demonstraram interesses
por diversas atividades pedagógicas durante todo o ano letivo.
Dois foram os momentos mais relevantes neste processo: um quando
um dos alunos pediu que a pesquisadora passasse atividades em seu
caderno e, num outro momento, quando outro aluno pediu que a pesquisadora
lesse uma história, de um livro que ele próprio escolheu.
Constatamos, assim, ao longo desta pesquisa, que o percurso escolar
destes alunos foi marcado pela exclusão em sala de aula,
visto que pouco ou nada se lembravam dos dois anos escolares precedentes.
No contexto desta sala de aula, a cópia ocupava espaço
de destaque dentre as atividades propostas, indo muito além
de suas funções auxiliares no processo de aquisição
da escrita. Embora o contexto concreto do processo de alfabetização
tenha afastado estas crianças do significado do trabalho
pedagógico, principalmente pela ausência dos motivos
que levam à escrita, havia um interesse visível desses
alunos para o aprendizado.
Entendemos que a prática da cópia esvaziada de significado
não possibilita a apropriação da linguagem
escrita e muito menos a formação de sentido pessoal.
Pensamos que para reverter esta realidade e possibilitar que os
alunos copistas aprendam a escrever, é preciso um comprometimento
político e uma prática intencional do professor alfabetizador
com os estudos referentes à apropriação da
linguagem escrita, visando superar práticas pedagógicas
inconsistentes e empíricas, bem como a melhoria das condições
de funcionamento e de estrutura do espaço escolar e do trabalho
de seus profissionais.
COLLARES,
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