Infância
E Diversidade: Um Estudo Sobre Significações De Gênero
No Brincar Renata F. Fernandes Gomes e Beatriz Belluzzo B. Cunha
As
principais instituições responsáveis pelo cuidado
e educação das crianças, atualmente, em nossa
sociedade, ainda são a família e a escola –
invenções da modernidade – mesmo considerando
as modificações que estas vieram a sofrer ao longo
do tempo. Mais recentemente, ressaltamos a importância das
instituições de educação infantil, creches
e pré-escolas, no atendimento à primeira infância.
No entanto, segundo a perspectiva dos estudos culturais, a educação
não se restringe às esferas familiar e escolar. Ela
se dá em muitos e diversos contextos, nos quais o conhecimento
é socialmente produzido. Cinemas, teatros, igrejas, shoppings,
clubes, parques e a mídia em geral fazem circular concepções
do mundo que partilhamos.
Nesse sentido, a brinquedoteca é compreendida como um espaço
coletivo infantil que possibilita a apropriação e
a criação de conhecimentos por meio do brincar, no
qual brinquedos e brincadeiras são concebidos como artefatos
culturais que ofertam significações da realidade que
nos cerca. Além de um contexto de aprendizagens, efetivas
e afetivas, nesta pesquisa, a brinquedoteca também se revelou,
como um lugar para a expressão livre e espontânea de
sentimentos, emoções, atitudes e valores infantis.
Todos os contextos educativos, por sua vez, constituem-se enquanto
espaços engendrados, pois buscam formar, definir e produzir
sujeitos por meio de práticas discursivas e não discursivas
que reproduzem e sustentam as hierarquias de gênero segundo
a lógica binária homem/masculino versus mulher/feminino.
Estas instituições não somente expressam as
distinções de gênero, elas as instituem na medida
em que gestos, condutas, símbolos e palavras produzidos nestes
ambientes vão sendo aprendidos e incorporados, incessantemente,
por meninos e meninas, “tornando-se parte de seus corpos”
(LOURO, 2001, p. 61). Paradoxalmente, “é indispensável
que reconheçamos que a escola ?os contextos educacionais?
não apenas reproduz?em? ou reflete?m? as concepções
de gênero que circulam na sociedade, mas que ela própria
?eles próprios? as produz?em?” (LOURO, 2001, p. 80-81),
pois os significados estão em fluxo, podendo ser assimilados,
apropriados, confirmados, negados, criados e transformados nas relações
sociais.
Este trabalho buscou demonstrar o papel das crianças na construção
social das relações de gênero na infância,
mediante abordagens teóricas que as consideram como atores
sociais – sociologia da infância, novos estudos da infância
e a psicologia sócio-histórica – no processo
de produção/reprodução dos valores culturais
referentes à categoria de gênero. Segundo estas perspectivas,
elas são vistas como agentes ativos nos processos de socialização
que podem e devem contribuir nas análises da dinâmica
social.
A capacidade ativa das crianças foi verificada nos diversos
momentos lúdicos propiciados pelo brincar. Nestes momentos,
elas expressavam suas opiniões a respeito do masculino e
do feminino, problematizando as representações engendradas
pela cultura adulta ao introduzir novas dimensões interpretativas
às questões suscitadas nas relações
com os pares. Nesse sentido, o brincar se evidenciou como um meio
privilegiado que permite às crianças transcender as
fronteiras delimitadas pela estruturação binária.
No entanto, percebemos nos discursos das educadoras e, até
mesmo naqueles de algumas crianças, uma tentativa de definição
das manifestações – subversivas – que
não correspondem à normatização do gênero
imposta por nossa sociedade. Por exemplo, interpretar o brincar
de boneca de alguns meninos como uma possível tendência
gay, aprisionando o sujeito dentro de um modelo identitário
que se pretende estável, coerente e fixo, mesmo que divergente.
Suely Rolnik (1996) afirma que quando processos de singularização
dos modos de subjetivação irrompem em cena, perturbando
as configurações identitárias tidas como permanentes,
estabelecidas e harmônicas, dificilmente eles encontram meios
para sua existencialização na contemporaneidade. O
que se observa é um esforço no sentido de perpetuação
da homogeneização das identidades de gênero
conforme a lógica de representação binária.
Segundo a autora, esta intolerância com relação
ao engendramento de diferenças exige uma modificação
na política de subjetivação que está
em vigor.
Os estudos feministas, numa abordagem pós-estruturalista,
visam romper com estas perspectivas essencialistas, universais e
inexoráveis. Segundo estes, as identidades são configurações
abertas e provisórias do eu, estão continuamente se
constituindo e se transformando, sendo o sujeito ativo nesse processo.
Desta forma, esta postura teórica permite olhar o brincar
destas crianças como expressão da diferença
e da singularidade em que os gêneros podem se configurar.
Ao buscar desconstruir o pensamento dicotômico que as oposições
binárias sugerem, os estudos feministas, numa abordagem pós-estruturalista,
atentam para o caráter histórico da construção
destas oposições e os interesses que permeiam, na
medida em que se apresentam hierarquizadas. Pensar as relações
entre homens e mulheres, meninos e meninas, dentro dessa lógica,
restringem as possibilidades de viver/sentir/experienciar expressões
da masculinidade e da feminilidade ao longo de nossa existência.
Desta forma, acreditamos que perspectivas teóricas críticas
podem subsidiar as práticas educativas existentes nos contextos
de atendimento à infância, no sentido de superação
de três concepções correntes: as que sugerem
a criança como incapaz, carente, imatura, etc; aquelas que
definem o desenvolvimento infantil como algo linear, progressivo
e ascendente; e as que consideram as manifestações
lúdicas singulares caracterizadas como inadequadas, desvios
de conduta e/ou anormalidades. É urgente a introdução
de novas formas de pensamento em instituições de educação
infantil que possibilitem a aceitação e a inclusão
da heterogeneidade, da multiplicidade e da diversidade.
Meninos e meninas participaram ativamente no processo de construção
desta pesquisa enquanto co-autores. Suas falas são legítimas
e seus saberes reconhecidos por sua condição de sujeito/criança.
Ao longo deste trabalho, eles/as nos ensinaram sobre prazer, ludicidade,
solidariedade, cumplicidade, dor, sofrimento, amizade, enfim, sobre
relações humanas. Aventurar-se pelo universo infantil
é deparar-se com o inesperado, o inusitado, o improvável
e, até mesmo, com o ininteligível, porém, é
justamente isto que enriquece a condição humana, que
nos faz vislumbrar “a invenção de novas possibilidades
de vida como obra de arte” (DELEUZE, 1992, p. 120).
REFERÊNCIAS
DELEUZE,
G. Conversações. Tradução de Peter Pál
Pelbar. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
LOURO, G. L. Gênero, educação e sexualidade.
Uma perspectiva pós-estruturalista. 4 ed. Petrópolis:
Vozes, 2001.
ROLNIK, S. Guerra dos gêneros & guerra aos gêneros.
Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade da Pós-Graduação
de Psicologia Clínica, PUC/SP, 1996. (mimeo)
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