Um
espaço singular para o psicólogo: grupos de formação
de educadores orientados pela psicanálise e pela psicologia
escolar Juliana Davini (Instituto de Psicologia da USP) jdavini@uol.com.br
Os
educadores quando em grupos de formação continuada
apresentam uma série de queixas e pedidos ao psicólogo
que coordena tais grupos, sendo que o pedido por diagnósticos
de “crianças eleitas-problema“ se sobressaem.
Há nas rodas de trabalho dos grupos muitas demandas também
por falar e compreender os conflitos interpessoais vividos dentro
da instituição.
Para responder a isto, dentro de uma instituição privada
chamada Espaço Pedagógico que criou um curso de especialização
para educadores que durava três anos, os módulos de
psicologia escolar e psicanálise construíram uma prática
(um currículo e uma metodologia) de formação
que tentou trabalhar a posição subjetiva do educador.
Entendendo este sujeito como constituído nas e constitutivo
das relações institucionais. (Guirado, 1995/2000).
Este trabalho vai analisar um percurso de uma psicóloga escolar
com formação em psicanálise que escutou tais
queixas de um outro lugar, fazendo intervenções no
discurso dos educadores/alunos em busca de mudanças na posição
subjetiva dos mesmos. As perguntas norteadoras da pesquisa foram:
Qual a contribuição desta prática? Qual a especificidade
deste lugar de psicóloga nos grupos de formação?
Esta escuta “de um outro lugar” quando amparada pelo
referencial teórico da psicologia escolar crítica,
procurou compreender o aluno-problema como uma construção
da escola e da sociedade (Souza, 2000). O olhar para as práticas
escolares excludentes problematizou também o tipo de diagnóstico
psicológico que funciona como uma sentença, buscando
denunciar um sistema social e educacional injusto.
Quando amparada pelo referencial da psicanálise, procurou
implicar o educador em sua produção discursiva, mapeando
sua parte na produção daquele conflito, tentando produzir
reviravoltas dialéticas que colocassem em circulação
lugares e saberes. As intervenções não eram
compreendidas como interpretações, no sentido analítico,
o que significaria a procura de um sentido latente nas formulações
que anunciam o inconsciente, como sonhos, lapsos etc, mas como confrontação
e citação.
Segundo Lacan (1998), confrontação é como um
dizer esclarecedor, é colocar o indivíduo de frente
ao seu dizer, implicando o mesmo em sua fala, mostrando posições
assumidas e delegadas. O movimento chamado de citação
lembra em algum momento preciso, o que já foi dito (um fragmento,
uma lembrança, uma palavra...) e de que maneira. Enfatiza
algo esquecido, coloca dois ou mais elementos, para serem correlacionados,
marca as repetições, os retornos, as ambivalências,
as lacunas, questiona palavras, estranhando-as. Nas aulas, dentro
dos grupos, estas intervenções foram sendo exercitadas
e seus efeitos observados, registrados e avaliados.
A pesquisa analisa o percurso de duas educadoras ao longo dos três
anos de formação dentro dos módulos, através
de textos escritos registrados por elas ao longo do trabalho e que
contam o sentido do trabalho para cada uma, bem como textos orais
registrados em sínteses das aulas. A análise procurou
mostrar como eram as falas iniciais, as intervenções
sofridas e os efeitos produzidos, procurando compreender a subjetividade
expressa na maneira como as alunas escolhidas organizavam o depoimento
de sua aprendizagem, ou seja, que posições eram adjudicadas
e assumidas por elas e como entravam em contato com as representações
que faziam de seu processo.
Para fazer a análise, tendo como prerrogativa o significante,
foi preciso percorrer, nos textos, as ênfases dadas, os temas
recorrentes, as repetições, as denegações,
os lapsos e as hesitações. Em alguns momentos, foi
observada a organização lingüística usada,
as escolhas, e o que elas legitimavam. As produções
produziram verdades que foram também procuradas. As queixas
e as demandas de uma certa maneira organizadas mostraram a subjetividade
articulada de uma certa forma, ao discurso social.
Os resultados mostraram-se bastante diversos. A primeira aluna fez
muitos deslocamentos, produziu mudanças na sua posição
pessoal e profissional, implicou-se, inventou caminhos que superaram
os conflitos levantados inicialmente nas relações
interpessoais, mudou o seu lugar de educadora no grupo, mexeu no
lugar da criança e dos pais, o que produziu mudanças
interessantes na estrutura pedagógica da escola, provocando
os demais profissionais da escola e se movimentarem. Com isto alcançaram
um trabalho de melhor qualidade, que superou muitos rótulos
e pré-conceitos, rompendo com estigmas sobre a classe popular
e redirecionou as práticas educativas.
A segunda fez um caminho diferente: incomodou-se muito com este
trabalho de formação que apontava as posições
subjetivas dela e em grupo, sentia-se exposta, lidava mal com as
faltas que se mostravam e escolhia o silencio, durante todo o primeiro
ano, independente das intervenções tentadas, foi assim.
No segundo ano a temática da infância e da feminilidade
a enganchou e ela muda de posição, fala, participa,
traz dúvidas e casos para expor, se mostra, aceita as intervenções,
arrisca-se no grupo e deste lugar consegue movimentar sua prática
de educadora e enfrentar melhor suas faltas, mudando a posição
anterior de medo, desconfiança e recusa, para uma posição
de aposta, de compartilhamento, de arriscar. No terceiro ano ela
não retorna deixando muitas perguntas no ar: este trabalho
terá tido qual sentido para ela? Quais os limites desta formação?
Como toca a cada um? Por que desistiu? O que leva com ela de marcas?
Elas poderão fazer diferença em algum outro momento
de sua formação continuada se articulando a outras
experiências e ganhando novos sentidos?
Nas considerações finais esta prática é
caracterizada como um espaço intermediário: um lugar
entre a educação, a psicanálise e a psicologia
escolar, um lugar que se faz e desfaz, que liga em alguns momentos
o espaço intrapsíquico com o interpsíquico,
não é analítico, mas pode produzir mudanças
subjetivas, deslocamentos discursivos e de práticas. Os módulos
funcionam como mote para tocar o sujeito dos educadores/alunos.
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