Formação
Continuada de Professores e o Argumento da incompetência Denise Trento Rebello de Souza (Universidade de São
Paulo)dtrento@usp.br
A
partir dos anos 1980, o tema da formação contínua
de professores adquire crescente destaque na agenda dos governos
de vários estados brasileiros, dentre eles do Estado de São
Paulo, que por meio de alguns programas educacionais propõem-se
a reduzir os altos índices de fracasso escolar. Desde então,
estabeleceu-se uma estratégia específica de enfrentamento
desse problema baseada na oferta de cursos de formação,
palestras e atividades congêneres dirigidos aos educadores.
Tanto as concepções e justificativas dos programas
educacionais quanto suas propostas de ação fundamentavam-se
numa idéia de incompetência dos professores. Neste
trabalho, discutimos a idéia da incompetência, traçando
suas origens na literatura educacional e investigando como repercutiu
na formulação e implementação dos principais
programas educacionais desenvolvidos pelo governo do estado de São
Paulo em três gestões consecutivas eleitas pelo voto
direto (1982-1993), a saber: Ciclo Básico, Ciclo Básico
em Jornada Única e Escola Padrão. Além da análise
dos quinze documentos oficiais desses programas e de suas propostas
de educação continuada, desenvolveu-se uma pesquisa
empírica sobre um dos programas de formação
de professores levado a efeito pela Fundação para
o Desenvolvimento da Educação (FDE) durante a implementação
da Escola Padrão. De caráter qualitativo e inspirado
na perspectiva etnográfica crítica (Rockwell, 1991;
Ezpeleta e Rockwell, 1986) o trabalho de campo valeu-se da análise
de documentos, de observações e entrevistas por meio
das quais buscou-se tomar como ponto de partida as perspectivas
dos profissionais diretamente envolvidos em curso de formação
docente, em seus três níveis da secretaria de Educação:
central (formuladores dos projetos de curso), intermediário
(monitores) e local (professores participantes). O corpus da pesquisa
é formado por 750 páginas de transcrição
na íntegra de 40 entrevistas, 15 registros ampliados elaborados
a partir das observações de sala de aula e de visitas
às escolas, além dos documentos oficiais já
mencionados.
Nossas análises trouxeram evidências de que a formação
continuada de professores foi tomada, tanto nas políticas
educacionais (através dos programas implantados), quanto
na literatura sobre formação de professores, como
elemento estratégico para forjar a competência do professor.
Identificamos a presença na literatura educacional hegemônica,
nos programas e propostas de educação continuada implementados
no período, bem como nas percepções dos profissionais
entrevistados, de uma lógica particular que sustenta a importância
crescente atribuída à área de formação
continuada de professores num projeto de melhoria da qualidade da
escola. Trata-se do que denominamos argumento da incompetência,
cujo cerne baseia-se na seguinte premissa: “não temos
uma escola de qualidade porque não contamos com professores
competentes”. Conseqüentemente, seguindo essa linha de
argumentação, a única, ou a principal ação
a ser proposta e perseguida para melhorar a qualidade do sistema
educacional seria a de melhorar a competência dos professores.
Cinco dos nove capítulos que compõem a tese trazem
elementos teóricos e empíricos que dão sustentação
à construção do argumento da incompetência,
em seus diferentes matizes, de acordo com o contexto em que aparece.
A análise da literatura educacional apresentada no capítulo
três revela que o conceito de competência (técnica)
e a crença na incompetência dos professores estão
profundamente imbricados na construção de uma linha
de argumentação aparentemente sólida e convincente
e que fundamenta o argumento da incompetência. Entretanto,
conforme apresentado no capítulo 4, os responsáveis
pela definição das políticas educacionais e
pela elaboração de seus respectivos programas tomam
emprestado do universo da literatura educacional apenas as análises
mais convenientes, politicamente mais vantajosas e que possam render
ações de maior visibilidade para o governo em exercício.
O debate acadêmico é simplificado em favor de formas
particulares, mais práticas e prescritivas. A lógica
linear e reducionista do argumento da incompetência está
também presente na percepção dos membros dos
três grupos diretamente envolvidos nas ações
de formação continuada desenvolvidas pela SEE. Entretanto,
os usos e repercussões variam entre os grupos. A equipe central
é o grupo mais seduzido, quando comparado ao dos monitores
dos cursos e ao dos professores (capítulo 6). Os professores
são os mais afetados pelos seus efeitos perversos e negativos
(capítulo 8), e os monitores o grupo que reunia alguns dos
elementos iniciais necessários para superá-lo, se
lhes fossem dadas condições para tanto (capítulo
7).
Para finalizar, entendemos que o argumento da incompetência
não só contribui para minar as já desgastadas
relações entre professores, mas também promove
formas equivocadas de entender o desenvolvimento profissional docente.
Equivocadas, mistificadoras e simplistas, ideológicas, portanto,
à medida que promovem concepções de formação
profissional docente que superestimam suas reais possibilidades
de resolver os problemas crônicos dos sistemas públicos
de ensino, em especial sua baixa qualidade, sem encaminhar políticas
públicas endereçadas a elementos cruciais condicionantes
de sua qualidade.
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