A
Aprendizagem De Crianças Com Deficiência Na Escola
De Educação Infantil Deigles Giacomelli Amaro e Lino de Macedo (Instituto de
Psicologia da USP) deigles@terra.com.br limacedo@uol.com.br
A
Educação Inclusiva “é uma proposta de
aplicação prática ao campo da educação
de um movimento mundial, denominado de inclusão social, o
qual é proposto como um novo paradigma e implica a construção
de um processo bilateral no qual as pessoas excluídas e a
sociedade buscam, em parceria, efetivar a equiparação
de oportunidades para todos”. (Mendes, 2002, p.61). Este é
um tema de extrema relevância no cenário das discussões
atuais sobre educação e objeto de reflexão
teórica, pesquisas acadêmicas e documentos recentes,
como verificamos em pesquisa bibliográfica (AMARO, 2004).
Porém,
constatamos que ainda é recente e pouco estudado os benefícios
de um contexto escolar que pretende ser inclusivo para o desenvolvimento
e à aprendizagem de crianças com deficiência.
Isto é, percebemos a necessidade de enfocar quais são
os ganhos que as crianças com deficiência têm
no seu desenvolvimento e na sua aprendizagem quando inseridas num
contexto escolar regular que respeite e invista nas suas possibilidades
de desenvolvimento e de aprendizagem e por que e quais são
as relações que favorecem estes processos. Entendemos
que socialização não é desvinculada
do desenvolvimento e da aprendizagem. Para nós, tratar desarticuladamente
estes termos é não considerar nenhuma destas dimensões
na sua essência. Dito de outra maneira, para teóricos
construtivistas ou dialéticos como Piaget, Vygotsky e Wallon
(LA TAILLE, OLIVEIRA, DANTAS, 1992), a construção
do conhecimento, o desenvolvimento e a aprendizagem se dão
pela possibilidade de interação social que toda pessoa
vai estabelecendo ao longo de sua vida. Portanto, se dissemos que
a pessoa se “socializou”, devemos necessariamente localizar
uma mudança no seu desenvolvimento e perceber algo novo que
foi aprendido. E, se dissemos que a pessoa se socializou, mas não
aprendeu, devemos questionar que processo de socialização
foi este. Neste sentido, questionamos qualquer discurso e prática
que se baseiam numa concepção dissociada destes processos.
E, também, daqueles que consideram que a mera inserção
na classe comum já é um trabalho de inclusão
escolar.
Com
o objetivo de estudar por que e quais as relações
estabelecidas no cotidiano escolar podem beneficiar o desenvolvimento
e a aprendizagem de alunos com deficiência em uma perspectiva
inclusiva de educação e quais podem ser os progressos
desses alunos neste contexto, realizamos uma pesquisa que foi apresentada
como dissertação de mestrado pela primeira autora,
sob a orientação do segundo. O trabalho foi realizado
no Programa de Pós-graduação em Psicologia
Escolar e Desenvolvimento Humano, do Departamento de Psicologia
da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade, do Instituto
de Psicologia da USP.
O
corpo teórico da pesquisa baseou-se em uma perspectiva construtivista
do desenvolvimento e da aprendizagem (MACEDO, 1994b, 2002, 2003;
PIAGET, 1936/1987, 1937/2001, 1957/1974, 1967/2000; PIAGET; INHELDER,
1968/1999), aí incluídas as pessoas com deficiência
(CORIAT; JERUSALINSKY, s/d; MANTOAN, 1989, 1991, 2000; INHELDER,
1943/1971). Além disso, considerou-se uma leitura construtivista
sobre Educação Inclusiva (MACEDO, 2001); compreensões
acerca do cotidiano (HELLER, 1970/s/d.; GINZBURG, 1989) e da valorização
do cotidiano escolar como o contexto a partir do qual o desenvolvimento
e a aprendizagem são construídos (MACEDO, 2004), sendo
que este deve ser foco de observação constante para
realizar intervenções em favor do progresso dos alunos
e, simultaneamente, avaliá-los.
Este
trabalhou considerou que realizar uma pesquisa é um processo
de construção de conhecimento e, por isso, ele foi
baseado em contribuições de uma visão construtivista
de conhecimento (GARCIA, 2002). Esta é uma concepção
que se enquadra na metodologia de pesquisa qualitativa. Para desenvolvê-la,
realizamos dois estudos de caso (LÜDKE; ANDRÉ, 1986).
Ao longo de oito meses (abril a novembro de 2002) a pesquisadora
acompanhou a vida escolar de duas crianças com deficiência
de cinco anos de idade, uma com paralisia cerebral do tipo tetraparesia
espástica (Érick) e outra com síndrome de Down
(Ítalo Júlio).
Alunos
com diferentes tipos de deficiências foram escolhidos porque
a intenção da pesquisa foi explicitar por que e quais
relações estabelecidas com as pessoas, com o espaço,
com o tempo, com os objetos e com as atividades beneficiam o desenvolvimento
e a aprendizagem independentemente de quais sejam estas deficiências.
O primeiro aluno – Érick – tem paralisia cerebral
em decorrência de hipóxia (diminuição
de oxigênio) cerebral na hora do parto. Seu quadro motor é
do tipo tetraparético espástico. Isto é, apresenta
espasticidade (tensão muscular) acentuada nos membros inferiores
e superiores. Necessita de um carrinho para sua locomoção
e posicionamento uma vez que não tem possibilidades de andar
e nem de sustentar o seu tronco sem o auxílio deste. Tem
dificuldades para utilizar os seus membros de acordo com a sua intenção
em decorrência de seu comprometimento motor e para demonstrar
sua compreensão porque não fala. O segundo aluno –
Ítalo Júlio - tem síndrome de Down. Esta é
uma síndrome ocasionada por uma alteração genética
em que ocorre uma falha no processo de divisão celular no
momento da concepção. Esta síndrome traz alguns
sinais físicos e clínicos típicos, entre os
quais, o déficit intelectual está presente. As duas
crianças eram alunas de duas escolas de educação
infantil do município de Mauá que se encontra na região
do grande ABC de São Paulo.
Para
realizar o acompanhamento, elaboramos um roteiro de observação
do aluno no cotidiano escolar que norteou a intervenção
da pesquisadora nas entrevistas realizadas com os profissionais
da comunidade escolar e, destes, na observação e registro
sobre os alunos. A elaboração de instrumentos para
o planejamento do trabalho com o aluno, considerando suas necessidades
e possibilidades de desenvolvimento, é uma tendência
necessária nas práticas pedagógicas inclusivas
como constatamos nos trabalhos de Downing (1996), Stainback e Stainback
(1999) e Wise e Glass (2003).
O
roteiro elaborado teve como pressupostos e propósitos: ser
baseado em questões que têm como objetivo desencadear,
no sentido do método clínico proposto por PIAGET (1945/s.d.),
olhares para as sutilezas do que é vivido no cotidiano escolar.
Isto é, ter questões que desencadeiem um processo
de observação e reflexão para que os profissionais
possam perceber a perspectiva da criança nas suas relações
com os elementos que compõem o cotidiano escolar; ser um
instrumento aberto para a variedade de possibilidades dentro da
realidade de cada contexto educativo, podendo se acrescentar ou
se retirar questões sempre que necessário; ampliar
aquilo que podemos observar da relação do aluno com
pessoas, espaço, tempo, objetos e atividades, contribuindo
para regular as relações entre estes elementos; instigar
e criar observáveis para que o professor e demais funcionários
da escola possam perceber e questionarem a relação
do aluno no cotidiano da escola com pessoas, espaço, tempo,
objetos e atividades ; favorecer para que o educador, através
da observação, possa estabelecer elos associativos
com o conhecimento do aluno e com sua conseqüente intervenção
no processo de aprendizagem do mesmo; ser um norteador dos registros
e relatórios que o professor elaborou sobre o aluno; ser
um norteador para a pesquisadora nas reuniões com as professoras
dos alunos, com os demais funcionários da escola e com as
mães deles. Isto é, ele foi um instrumento que orientou
a intervenção da pesquisadora nos encontros de coleta
de dados; ser um norteador para a pesquisadora para a organização,
apresentação e discussão dos dados.
O
roteiro, a partir destes pressupostos, foi dividido em cinco grupos
de questões: relações com pessoas, espaço,
tempo, objetos e atividades. Segundo Piaget (1937/2001) estas são
categorias do real a partir do qual o conhecimento é construído.
A divisão do instrumento nessas categorias teve a intenção
de evidenciar a importância da relação com as
mesmas, orientar a observação e facilitar a organização
dos dados. Porém, consideramos que num mesmo fato do cotidiano
escolar, numa brincadeira de amarelinha, por exemplo, podemos empreender
uma análise expressando a relação com todos
estes elementos. Na sua elaboração procuramos detalhar
questões relativas a: o que o aluno está fazendo,
como ele está fazendo, por que ele está fazendo, para
que ele está fazendo, quando ele está fazendo? Como
está a participação, interação,
localização, orientação, locomoção,
compreensão, atenção, interesse, organização,
realização, estruturação, reação,
reconhecimento, cuidado, responsabilidade, funcionalidade, manuseio,
ritmo do aluno nas atividades do cotidiano da escola? Que tipo de
auxílio, recursos e adaptações no tempo, na
forma, no conteúdo e no objetivo são necessários
para que o aluno possa estar participando do cotidiano escolar,
se desenvolvendo, aprendendo, e sendo respeitado e valorizado em
sua singularidade e em sua diferença?
Para organizar os dados, realizamos três recortes temporais:
1º período (início do trabalho com o aluno),
2º período (informações sobre o processo
do trabalho com o aluno) e 3º período (informações
reverentes à entrevista final de coleta de dados). Primeiramente,
estes recortes foram organizados em tabelas e, depois, eles foram
transformados em histórias narrativas a partir das quais
os dados foram apresentados destacando: os progressos dos alunos;
quais relações e por que elas favoreceram o desenvolvimento
e a aprendizagem das crianças acompanhadas.
Ao longo do período de coleta de dados, observamos progressos
no aprendizado e no desenvolvimento sensorial, motor, cognitivo,
afetivo, social e, conseqüentemente, da autonomia dos alunos.
Para cada um, tivemos progressos específicos em cada um destes
aspectos de acordo com as necessidades e possibilidades dos mesmos.
Os progressos aconteceram na medida em que os alunos se relacionavam
com as pessoas, com o espaço, com o tempo, com os objetos
e com as atividades nos seus cotidianos escolares.
Valorizamos
e constamos neste estudo a importância das relações
estabelecidas no cotidiano escolar para o processo de desenvolvimento
e de aprendizagem de crianças com deficiência. Entretanto,
não é qualquer tipo de relação que favorece
este processo. Nas histórias dos alunos estudados percebemos
a possibilidade de romper relações baseadas na lógica
da exclusão e construir relações na lógica
inclusiva, da interdependência (MACEDO, 2004).
Consideramos
que as histórias dos alunos nos seus cotidianos escolares
nos mostraram formas de agir na perspectiva da interdependência
- de forma solidária, cooperativa e que favoreceram o desenvolvimento
da autonomia de todos os envolvidos. Mostraram também, que
estas formas de se relacionar não são fáceis,
uma vez que estamos habituados a agir de forma dependente ou de
forma independente ou de forma co-dependente (MACEDO, 2004).
O
estudo evidenciou a necessidade de construção de instrumentos
que auxiliem a compreensão das necessidades dos alunos. Estes
instrumentos possibilitam melhorar as observações
das relações dos alunos no cotidiano escolar, ao ponto
de servirem de indicadoras dos processos de seu desenvolvimento
e aprendizagem. Além disto, eles contribuem para uma reflexão
sobre as intervenções efetuadas e para uma compreensão
do porque as pessoas aprendem.
Incentivar
o desenvolvimento de competências transversais foi uma das
contribuições deste trabalho. Acreditamos que os envolvidos
no processo educacional aprenderam a valorizar uma forma interdependente
de interação, isto é, em que as relações
são consideradas como irredutíveis, complementares
e indissociáveis.
Esta
pesquisa acrescentou dados favoráveis a hipótese de
que todas as pessoas podem aprender (MACEDO, 2002), de que o conhecimento
é um processo de construção, o mesmo valendo
para uma educação inclusiva. Esta só pode ser
compreendida como um sistema complexo (GARCIA, 2002; MACEDO, 1994a),
em que o todo e as partes que o constituem implicam-se mutuamente,
e possibilitam diferentes tipos de recortes. Assim, o aluno, compreendido
na sua singularidade, é parte e todo ao mesmo tempo, assim
como o contexto educacional e os envolvidos no processo educativo.
Os fragmentos e os indícios da realidade só podem
ser compreendidos encadeando-se uma situação vivida
com outras. O que vivemos em uma educação inclusiva,
tal como num sistema complexo, tem, como característica necessária,
determinações multifatoriais interdependentes.
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