Projeto
político pedagógico: Possibilidade de resistência
à Alienação docente? Flávia da Silva Ferreira Asbahr (Universidade Ibirapuera) flaviasfa@yahoo.com.br
A
origem dessa pesquisa está em alguns questionamentos que
surgiram no decorrer de minha atuação como psicóloga
escolar em escolas públicas. Nas diversas escolas pelas quais
passei, algumas questões sempre me incomodavam: os discursos
cristalizados dos professores sobre sua prática e sobre sua
relação com os alunos e a falta de clareza acerca
das finalidades da educação de forma geral e da atividade
pedagógica de forma específica. As tarefas propostas
pelos professores aos alunos pareciam-me "soltas", "perdidas"
e muitas vezes sem objetivos definidos. Muitas vezes tinha a impressão
de que a maior parte das ações pedagógicas
desenvolvidas em sala de aula restringia-se ao fazer pelo fazer,
professores passavam uma série de exercícios aos alunos
buscando deixá-los ocupados e estes executavam tarefas que
não lhes fazia sentido algum. Outra impressão, sempre
presente, era a dificuldade, quase impossibilidade, dos professores
empreenderem projetos coletivos ou pelo menos criarem espaços
para compartilhar as experiências ocorridas na sala de aula.
Essas experiências instigavam-me a entender como os projetos
políticos pedagógicos das escolas públicas
eram construídos e a conhecer escolas que apresentassem um
projeto construído de forma verdadeiramente coletiva e que
tivesse repercussão na sala de aula. Essas questões
levaram-me a formular perguntas de pesquisa: Como o projeto político
pedagógico de uma escola é construído? Como
acontece a participação dos docentes e das demais
pessoas vinculadas aos outros segmentos da escola nessa construção?
Como os profissionais da escola e a comunidade concebem o p.p.p.?
Qual importância e que função atribuem a ele?
Como o projeto pedagógico relaciona-se ou pode relacionar-se
com as ações pedagógicas ocorridas na sala
de aula?
Essas indagações, somadas ao estudo teórico
dos principais expoentes da psicologia histórico cultural
(Vigotski, Leontiev, Luria e outros), produziram questionamentos
sobre a atividade pedagógica que desencadearam esse trabalho.
Os psicólogos soviéticos, especialmente Leontiev,
elegem o conceito de atividade como princípio central ao
desenvolvimento do psiquismo humano e das funções
psicológicas superiores. Para estes psicólogos, a
atividade humana está intimamente vinculada à formação
da consciência, e essas duas categorias formam uma unidade
dialética, ou seja, a consciência é produto
subjetivo da atividade dos homens com os outros homens e com os
objetos ao mesmo tempo em que a consciência regula a atividade
produtora da vida humana.
Nas relações entre a consciência e a atividade,
a consciência é a expressão das relações
do indivíduo com o mundo social, cultural e histórico.
A passagem do mundo social ao mundo psíquico não se
dá de maneira direta, o mundo psíquico não
é cópia passiva do mundo social, isto é, as
significações sociais compartilhadas por meio da linguagem
não são apropriadas imediatamente pelos homens. Essa
apropriação depende do sentido pessoal atribuído
às significações sociais. Dessa forma, a relação
entre significação social e sentido pessoal é
componente central da consciência humana.
O sentido pessoal é criado pelas relações objetivas,
refletidas na consciência humana, entre o que motiva a atividade
e os resultados da ação. Segundo Leontiev, na sociedade
de classes a estrutura da consciência sofre uma transformação
radical, significações sociais e sentidos pessoais
não apenas deixam de ser coincidentes como se tornam contraditórios.
Há uma cisão entre o significado social do trabalho
e o sentido pessoal do trabalho, que se torna obter um salário.
Esse fenômeno é denominado por Leontiev de alienação.
Partindo dessas reflexões surge a questão: Seria o
projeto político pedagógico um instrumento de resistência
à desintegração entre a significação
social e o sentido pessoal na atividade pedagógica do professor?
Para começarmos a responder a nossa pergunta de pesquisa,
é necessário conceituarmos o projeto político
pedagógico entendido como atividade.
O projeto torna-se atividade quando os projetos individuais dos
professores convergem em torno de um mesmo objetivo e os professores
passam a assumir a existência de uma necessidade em comum:
a melhoria da qualidade do processo de ensino e da aprendizagem.
A existência de um projeto coletivo é mais do que a
soma dos vários projetos pessoais, pois os motivos individuais
da atividade tornam-se motivos do grupo enquanto os motivos do grupo
ganham uma configuração individual.
Para que um projeto torne-se atividade é necessária
a discussão coletiva sobre quais necessidades deverão
ser atendidas pela sua elaboração e quais objetos
poderão suprir essas necessidades, pois ao combinarem necessidades
com objetos, os docentes encontrarão os motivos pessoais
e coletivos da atividade-projeto.
Assim, um projeto, para ser entendido como atividade, deve ser um
projeto de sujeitos que, a partir de suas necessidades, engajam-se
num plano de ação coordenado, envolvendo os diversos
segmentos da escola. Ao convergirem seus motivos individuais para
motivos coletivos (e institucionais), os professores articulam-se
em torno de objetivos definidos em comum e passam a desencadear
ações planejadas. Essas ações podem
ser desmembradas em diferentes operações necessárias
ao alcance dos objetivos delineados a priori. O projeto-atividade
permite, dessa forma, o aprofundamento da construção
consciente da identidade do coletivo da escola e o crescimento pessoal
e profissional dos educadores.
Nesse sentido, no campo teórico, a construção
do projeto político pedagógico entendido como atividade
poderia ser um elemento de resistência à desintegração
entre o sentido pessoal e a significação social da
atividade pedagógica. Mas, e na prática, como seria
a construção de um projeto político pedagógico
como atividade?
Para responder a esse questionamento, realizamos essa pesquisa em
uma unidade escolar em que os professores estivessem preocupados
em construir o projeto político pedagógico da escola
e articulá-lo com suas ações pedagógicas.
A pesquisa de campo foi realizada numa escola pública municipal
da cidade de São Paulo que buscava junto com outras escolas
do seu entorno construir um p.p.p. para a micro-região.
No decorrer da observação do cotidiano escolar, durante
um ano letivo, percebemos que embora existissem eixos de organização
do trabalho pedagógico na escola, não havia um projeto
político pedagógico entendido como atividade, pois
nem todos os professores tinham consciência desses eixos de
organização e dos fins das ações componentes
da atividade pedagógica. O projeto aparecia mais como uma
possibilidade do que como realidade. Embora o trabalho coletivo
fosse uma meta, planejar as ações pedagógicas
raramente era uma atividade dos professores em conjunto. A atividade
pedagógica escolar encontrava-se fragmentada e, por vezes,
dissonante dos motivos individuais da atividade profissional dos
professores.
É fundamental ressaltar o quanto as condições
objetivas de trabalho limitam a constituição da consciência
docente integral: classes lotadas, extensa jornada de trabalho,
baixos salários, muitas faltas docentes, dia-a-dia escolar
atribulado, solidão em sala de aula, excesso de barulho,
burocracias são os elementos principais que constituem o
conjunto de tais condições. Diante desse panorama,
os professores sucumbem, adoecem, por vezes desistem de ensinar.
Nesse cenário, como resistir à ruptura entre o significado
e o sentido pessoal atribuído à atividade pedagógica?
Por outro lado, contraditoriamente, vimos professores buscarem formas
mais humanas e humanizadoras de conduzir sua atividade pedagógica
e organizar suas ações na escola. Observamos docentes
desdobrarem-se para planejar as aulas mesmo diante da grande carga
horária de trabalho. Assistimos a professores refutando os
discursos ideológicos que culpabilizam o aluno e a família
pobre pelo fracasso escolar. Vimos tentativas de produzir um trabalho
verdadeiramente coletivo. Em síntese, observamos a luta diária
e incessante de grande parte dos docentes por uma escola pública
de qualidade e por um trabalho pedagógico menos alienado.
Ao falarem do seu trabalho, os professores denunciavam a fragmentação
da atividade pedagógica e de sua vida como um todo. Expressavam
em suas ações e no discurso sobre sua prática
diversas rupturas: entre os motivos da atividade e os fins das ações;
entre o que se projeta e os resultados alcançados; entre
seus projetos de vida e de educação e o projeto educacional
em vigência. Essas cisões são sentidas na forma
de frustração, impotência e, no limite, levam
ao adoecimento físico e psicológico.
Por outro lado, foi possível reconhecer que há contradições
no trabalho pedagógico e na organização social
em que a escola está inserida reveladoras de possibilidades
de superação da alienação. Para tanto,
é necessário que os professores em conjunto possam
transformar seus motivos individuais em motivos coletivos e, dessa
forma, possam engajar-se na construção de planos de
ações destinados a garantir que os alunos apropriem-se
do conhecimento universal. Assim, os docentes podem colocar a educação
como condição indispensável para a formação
do humano-genérico e criar espaços de resistência
à fragmentação do trabalho pedagógico.
Concomitantemente, é fundamental a luta dos professores por
espaços em que possam estabelecer uma relação
consciente com a universalidade dos seres humanos, para além
da relação singular-particular.
Acreditamos que a construção do projeto político
pedagógico - não só da escola, mas também
dos sistemas educacionais - entendido como atividade configura-se
como elemento de humanização docente e é, potencialmente,
um locus de resistência à desintegração
entre o significado social e o sentido pessoal atribuído
à atividade pedagógica. Ressaltamos, assim, a importância
dos espaços coletivos de discussão dos professores
que tenham como meta refletir e propor ações visando
à apropriação do conhecimento acumulado pelos
estudantes.
Copyright
2007. Associação Brasileira de Psicologia Escolar
e Educacional.
Todos os direitos reservados. VER
CRÉDITOS .