Um
Estudo Etnográfico Sobre o Professor Coordenador Pedagógico Marcelo Domingues Roman (Instituto de Psicologia da USP) mdr@usp.br
A
implantação da função de professor coordenador
pedagógico (PCP) em toda rede estadual de ensino paulista,
ocorrida em meados de 1996, é, no mínimo, intrigante.
Não só porque escancara, aos desavisados, o fato de
que por muito tempo as escolas estaduais paulistas funcionaram,
no geral, sem coordenação pedagógica até
então, mas também, e sobretudo, porque criou uma situação
em que sindicato, pesquisadores e governo chegaram a compartilhar
a mesma ilusão: a de que o PCP, por si, seria um elemento
deflagrador de grandes transformações na escola. Os
discursos desses três agentes sociais diferenciam-se entre
si de acordo com a visão intrínseca que cada um detém
do objeto, porém foram igualmente apanhados por uma teia
ideológica que em certo âmbito os confundiu, chegando
a colocar na mesma posição antagonismos históricos,
como o governo e o sindicato. Enredados pela virtualidade das idéias,
esses discursos somente podem encontrar sua verdade no concreto,
no modo como se dão as relações institucionais
no cotidiano escolar.
O contexto atual das políticas públicas para a educação,
as características historicamente construídas do nosso
sistema educacional e a intrincada rede de relações
escolares concorrem para determinar o campo de forças em
que o PCP busca construir seu espaço de atuação.
A fim de vislumbrarmos como se dá a confluência desses
fatores, optamos por observá-la, realizando um estudo de
caso de tipo etnográfico.
Ao nos colocarmos ao lado do PCP, nos intriga a versatilidade, a
simultaneidade, o acúmulo de tarefas díspares que
confundem o profissional e impedem-no de refletir com clareza, o
desempenho de papéis definidos por outros nomes que não
o de coordenação pedagógica: porteiro, recepcionista,
almoxarife, bedel, executor de sanções disciplinares,
secretário, capataz etc. Um dos nossos sujeitos de pesquisa
inicia assim sua entrevista: “primeiro lugar... eu faço
tudo... menos o serviço da coordenação...”.
Esta é uma das fortes marcas presente não só
no trabalho do PCP mas em todo funcionamento da escola: a educação,
tarefa primordial da escola e de seu PCP, é atropelada por
outros interesses e afazeres. Os PCPs sentem-se pressionados por
uma ordem de eventos que privilegia o agir apressado em detrimento
do pensar, que conduz à tentativa desesperada de organizar
o caos que invade seu trabalho e força o afogamento de qualquer
atividade educacional. Essa pressão, em ritmo alucinante,
coloca o PCP em estado de constante alerta, de sobre-exposição
a diversos e heterogêneos estímulos, de aumento de
irritabilidade. O frenesi escolar produz em muito, e incansavelmente,
o que se propõe a abolir: ignorância. Imersos no interjogo
fugidio de ações e coações, os educadores,
sobre-explorados, apegam-se a formas de afirmação
de espaço profissional mínimo e de garantia da subsistência,
tanto material quanto de economia egóica.
Quanto mais o PCP conforma-se em não realizar tarefas pedagógicas,
mais ele parece adequar-se ao que dele é esperado. E mais
é chamado a participar ativamente do turbulento jogo de forças
entre os vários grupos e agentes no seio da escola. Essa
participação significa esforçar-se por fazer
cumprir as normas por alunos e professores, organizar o acesso diário
de alunos à escola, administrar a ocupação
de seus espaços, cadenciar a circulação por
seus corredores, conformar condutas, punir alunos transgressores,
aguçar os instrumentos de controle a fim de acompanhar o
acirramento dos meios de transgressão.
Oficialmente, a implantação generalizada da função
de PCP relacionar-se-ia a uma série de inovações
educacionais que o sistema busca, por meio dessa função,
implementar. Com efeito, educação para a cidadania,
democratização da escola, descentralização,
responsabilização do sistema educacional pelo fracasso
escolar são temas que, entre outros, têm feito parte
ultimamente, e de modo inédito, do discurso oficial sobre
educação.
Entretanto,
uma análise pormenorizada revela que por trás deste
discurso aparentemente progressista há uma função
estritamente reprodutora da escola: ela deve servir ao mercado de
trabalho, tal como vem se modificando, formando quem será
por ele absorvido e fazendo se conformar quem será por ele
marginalizado; determinando uma escola para dirigentes, e que podem
por ela pagar, e outra para os que trabalharão em condições
precárias, se o conseguirem; continuando a produzir fracassos,
mas com mecanismos cada vez mais aprimorados de atribuição
desses fracassos ao próprio indivíduo; exibindo roupagens
democráticas e concomitantemente se especializando em práticas
autoritárias cada vez mais sutis; difundindo uma visão
de sociedade em que os conflitos sejam vistos apenas enquanto manifestações
de sua heterogeneidade, e não de sua contradição
interna, e pregando o exercício de uma cidadania ‘cognitiva’,
mais afeita ao Código de Defesa do Consumidor do que à
luta política pela manutenção de direitos coletivos
que diminuam as enormes disparidades sociais.
A importação de pacotes pedagógicos, que desconsideram
a especificidade brasileira e funcionam como instrumentos de coerção
e esmagamento de individualidades, reafirma-se como tradição
em nossa política educacional. Traduzidos nos gabinetes em
chavões neoliberais e anunciando práticas avessas
à realidade, esses pacotes transitam pela estrutura institucional
desfigurando-se. A escola é o último dos órgãos
de uma estrutura burocrática, verticalizada, marcada, em
toda sua extensão, muito mais pelas disputas internas do
que pela consecução de fins pedagógicos. A
circulação de informações contamina-se
por relações em que, comumente, o subordinado é
depreciado e culpabilizado e o superior representa alguém
que se aprende a burlar.
Ainda que em nível mais amplo de análise, continuemos
a testemunhar o oferecimento de uma educação precarizada
a uma população incessantemente oprimida, não
é uma ordem prostadora e soberana que encontramos no cotidiano
escolar. Encontramos uma dialética entre ordem e desordem,
cujo desenlace ou característica imanente, freqüentemente,
é o logro. O cumprimento burocrático da lei é,
de modo intrínseco, constituído por uma série
de pequenos ilegalismos; a ordem se vê engambelada pelos sujeitos
e utilizada, contra outros, como meio para obtenção
de fins particulares. As diversas situações de conflito
freqüentemente abarcam a burla, a malandragem, como meio de
ataque, esquiva, simulacro, defesa e contra-ataque. A escola, instituição
pública que teria por função educar, apresenta-se
como palco de inúmeras relações de poder, em
que situações precárias de subsistência
e disputas tendem a substituir o processo de ensino aprendizagem.
A educação de educadores revela-se uma insistente
heterogestão do trabalho, que se efetiva muito mais como
efeito colateral de um modelo tacanho do que como plano arquitetado
e conduzido pela função ideológica dos mecanismos
institucionais. Aqui e ali conseguimos vislumbrar germes de construção
de uma educação verdadeiramente democrática,
mas, no geral, a situação é funesta. Apesar
de assistirmos a valentes sublevações, a disputas
acirradas entre a sujeição e as capacidades de transformação
e criatividade humanas, essas últimas parecem exaurir-se.
Objetificado pela precárias condições de trabalho,
nosso professor coordenador pedagógico está distante
das expectativas criadas por ocasião de sua implantação.
No geral, sua prática é avessa aos termos que denominam
sua função, de modo que, ao nos aproximarmos de sua
realidade concreta, é difícil evitar a constatação
de que se está diante de um grande paradoxo.
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