Grupo
escolar e inclusão: um estudo sobre a articulação
grupal dos profissionais da escola frente à inclusão
educacional Jane Teresinha Domingues Cotrin (UNESP - Marília-
SP)
O projeto desenvolvido no mestrado teve como objetivo analisar o
grupo de profissionais que atuam na escola e sua articulação
frente à inclusão educacional. A análise foi
feita a partir da observação, participação
e registro de oito reuniões de HTPC (hora de trabalho pedagógico
coletivo) numa escola pública de ensino fundamental na cidade
de São José do Rio Preto. Os resultados expressaram
uma grande dificuldade de articulação grupal desses
profissionais na busca de soluções para os problemas
mais emergentes impostos pela inclusão e outros que permeiam
o cotidiano escolar. A conclusão do trabalho aponta para
um grupo fragilizado e excluído do sistema educacional, que
tem como marca fundamental o fazer solitário de seus membros
e um tímido ensaio de movimento grupal e de força
de algumas conquistas.
A inclusão, enquanto paradigma, não supõe apenas
inserir todas as crianças na escola, mas repensar a estrutura
do sistema educacional. Incluir os alunos com deficiência
por exemplo, requer a discussão do currículo, a revisão
de atitudes, a criação de infra-estrutura física
e outros. A proposta central da educação inclusiva
é uma escola que atenda a todos: alunos, professores, pais,
direção, funcionários. Ninguém deverá
ficar de fora. Na instituição escolar, por sua própria
estrutura e objetivos, todos devem estar incluídos, de maneira
articulada e coesa, para garantir que esses objetivos sejam cumpridos.
Para Bleger (1984, p50), uma instituição não
deve ser considerada sadia ou normal quando nela não existem
conflitos, e sim quando a instituição pode estar em
condições de explicitar seus conflitos e possuir os
meios ou possibilidades de arbitrar medidas para sua resolução.
As condições e possibilidades de arbitrar medidas
para a resolução dos conflitos existentes numa instituição
só é possível a partir dos grupos humanos que
a constituem e de sua articulação.
Considerando-se os profissionais da escola como um grupo de trabalho
e entendendo sua ação como definidora da cotidianidade
que se engendra em seu interior, cheguei ao objetivo geral deste
trabalho que é compreender: como esses profissionais trabalham
em grupo e como este grupo se articula frente a inclusão
educacional. A escolha da escola deu-se por conta da matrícula,
no ano de 2001, de seis alunos com deficiência visual e um
com deficiente mental. Em busca de dados para compreender essa situação,
optei por descrever os encontros do HTPC (Hora de Trabalho Pedagógico
Coletiva), onde se reúnem semanalmente professores, coordenador
pedagógico e direção para discutir assuntos
pedagógicos e administrativos. A escolha recaiu sobre este
grupo, por ser o único da escola que se reúne sistematicamente
para discutir assuntos referentes à mesma. Esta pesquisa
foi realizada num período que compreendeu o ano letivo de
2001.
Para realizar esta pesquisa baseei-me teoricamente no estudo de
grupos operativos elaborados por J. Bleger (1984, 1998) e Pichón-Rivière
(1998) e em estudos sobre inclusão educacional feitos por
Romeu Sassaki (1997), Leny Mrech (2001), Claudia Werneck (1997),
Susan Stainback (1999). Para compreender alguns aspectos fundamentais
dessas relações foi necessário, ainda, abordar
o referencial materialista dialético a partir dos trabalhos
de Maria Helena Souza Patto (2000), Leandro Konder (1988), Wanderlei
Codo (1988), entre outros.
A escolha pelo estudo de grupos operativos recaiu sobre o termo
“operativo”, que contém em seu bojo a idéia
do “que opera, realiza, produz”. Para Pichón-Rivière
(1998) os conflitos são inerentes aos grupos e estes devem
ser capazes de resolver as adversidades cotidianas a partir do esclarecimento,
comunicação, aprendizagem e resolução
da tarefa. Esse processo supõe um a desalienação,
comum a todos os grupos em que o cumprimento da tarefa sobrepõe-se
ao próprio humano.
O processo de alienação não tem uma causa em
si, mas, como afirma Patto (2000) as políticas públicas
geram relações escolares que produzem conflitos impermeáveis
à busca interna de soluções. Para Agnes Heller
(apud Patto, 2000) o preconceito tem a função de consolidar
as opiniões e não permitir que as indagações
e discussões se instalem.
Com a capacidade de exposição da angústia tolhida,
a única forma de enfrentamento do conflitos é a esquivação
deles, com uma ilusória tentativa de eliminação
dos “culpados”. Esse sofrimento se projeta no ambiente
de trabalho das formas mais variadas, desde ataque pessoais até
a indiferença. Para Bleger (1998, p.73) todas estas formas
distorcidas do pensar não são só condutas psicológicas
com motivações individuais, mas são fundamentalmente,
padrões culturais e formam parte da superestruturada organização
sócio-econômica vigente. Parte deste arsenal ideológico
está constituído pela lógica formal, que fragmenta,
“elementariza o processo de pensamento. Na instituição,
a linguagem, enquanto comunicação de si e do seu trabalho,
é a força motriz que dirige o grupo para a autonomia.
A partir destas considerações este estudo foi realizado
sob o enfoque da pesquisa etnográfica em educação.
Focaliza o profissional da escola enquanto membro de uma equipe
de trabalho, a partir da dimensão institucional.
De posse dos resultados (a transcrição dos HTPCs)
busco responder às questões da pesquisa a partir do
referencial teórico adotado.O primeiro ponto de análise
é a formação do grupo. A escola não
mantém uma discussão periódica com todos os
funcionários da escola. Os faxineiros, inspetores de alunos,
merendeiras, auxiliares não contribuem efetivamente para
a prática escolar através de relatos, dúvidas
ou sugestões. Mesmo o grupo de professores pareceu se reunir,
mais por obrigação do que por necessidade. A competência
desta escola passa por duas esferas: a política – o
governo administra a escola e a individual: os profissionais devem
cumprir sua função. A esfera da organização
grupal aparece muito fragilizada. O grupo, através das reuniões,
mostrou a solidão dos profissionais da escola e um espaço
muito limitado para trocas e aprendizagens efetivas.
Um outro ponto importante a destacar é que tanto a cooordenadora
pedagógica quanto a diretora elogiam muito os professores
e empregam uma política de “convencimento” para
com eles. Partindo da premissa de que os professores são
levados à ação sem discutirem profundamente
o assunto, inclusive seus medos, a direção e coordenação
da escola buscam caminhos para uma prática que ainda mostra-se
fragilmente democrática, por apresentar ações
contraditórias. Um exemplo disso é o planejamento,
onde o grupo de professores analisaram o plano escolar do ano anterior
(2000) para baseado na sua avaliação construir o plano
escolar 2001 – essa é uma atividade crítica,
que pretende-se consciente das ações que tiveram frutos
positivos e negativos e contradiz ações de convencimento
que não discutem a prática em si. Dentro da perspectiva
de uma falsa “gestão democrática”, o elogio
pode, também, estar disfarçando o autoritarismo que
leva os professores a aceitarem determinadas coisas que à
primeira vista não são impostas.
Em todos os encontros os professores mostraram-se muito angustiados
ante a questão da inclusão educacional. Essa angústia
carrega em si vários elementos e vários conflitos.
Um deles é a questão da violência imposta pelas
políticas públicas aos professores, que ficam atemorizados
diante de cada novidade que se apresenta à escola. Um outro
é o medo da desagregação do eu diante de situações
novas e à qual o grupo não é continente.
Calar é uma atitude muito freqüente destes professores
que revela por um lado uma atitude de resistência: “calo
porque não concordo, mas faço como mandam”,
um silêncio de rebeldia e por outro uma atitude de conivência,
já que é confortável manter-se no papel passivo
de executar ordens e criticá-las, sem se envolver com o assunto
e se co-responsabilizar. Revela também a falta de confiança
na produção do grupo e no seu poder transformador,
que realmente é inexistente em políticas centralizadoras.
Em todas as reuniões, constou da pauta assuntos importantes
do cotidiano escolar como a questão da inclusão, da
disciplina, da recuperação dos alunos, educação
física, dificuldades de aprendizagem, mas nunca houve continuidade
nas discussões. Elas não se apresentam com começo-meio-fim.
Há um levantamento do problema e uma suposta solução
que, geralmente, vem da direção da escola. Como as
discussões não são aprofundadas, permanecendo
num nível superficial, os reais problemas da escola são
escamoteados, ou são atribuídos a outrem, que no caso
de políticas centralizadoras torna realidade essa “culpa”,
ou ainda, atribuídos aos alunos como os produtores dos problemas
da escola. Seja pela falta de objetividade das reuniões ou
pelo resultado inócuo que apresentam as discussões,
pela necessidade do cumprimento das “responsabilidades”
diante do horário, pela cronificação de papéis
ou até para afastar a angústia que trazem a discussão
de determinados assuntos, o fato é que os professores não
se empolgam com as reuniões e preferem que os momentos de
discussão sejam substituídos pelas tarefas práticas
que tem que desempenhar no dia-a-dia.
A falsa autonomia que é dada à escola através
de uma centralização crescente das decisões
impede que o grupo encare com responsabilidade as causas e conseqüências
da prática. Além de atribuir ao outro questões
inerentes à escola, há um sentimento de rejeição
ao que vem do governo e muitos projetos encaminhados são
resistidos antes de serem analisados, pela simples necessidade da
resistência. A resistência, a crítica, aparece
assim de uma forma acrítica e acontece somente pela necessidade
de responder de uma forma infantilizada às agressões
sofridas.
Um outro ponto importante a considerar é a “capacitação
dos professores”. A necessidade de capacitação
de professores está muito presente no sistema educacional
e em toda a sociedade. Vou considerá-las agora sob um outro
aspecto: as capacitações que violentam o saber do
professor. Ao não discutir a própria prática,
não ver elementos de aprendizagem no dia-a-dia e vivenciar
um modelo de política centralizadora, há uma crença
generalizada que o saber não está na escola e não
está no professor. Está num outro lugar, na universidade,
nas secretarias, nos profissionais. Todos estes elementos apontam
para uma desvalorização de todo o processo vivido
pela escola e contribuem sobremaneira para a desvalorização
do professor.
Numa das últimas visitas à escola, soube que o grupo
de professores, direção e coordenação
havia decidido a distribuição dos alunos com deficiência
visual para o ano seguinte, necessitando somente de uma aprovação
da Secretaria (que aprovou). Embora tímida essa foi um articulação
necessária para o bom andamento do processo. Decidida e encarada
pelo grupo. Sujeito à modificações e avaliações.
Consciente e por isso mais suscetível ao sucesso.
A pesquisa realizada na escola levantou pontos importantes para
o entendimento de como funciona o grupo escolar. Muitos são
os excluídos do sistema escolar. Entre estes podemos destacar
os professores e os alunos. Constantemente violentados pelo processo,
os professores se vêem acuados ante seu principal papel na
escola: a construção de uma saber para a cidadania.
Excluídos, eles passam a excluir também.
A inclusão como um novo paradigma para a educação
vem propor, como a teoria dos grupos, um fazer pedagógico
discutido e assumido por todos os membros da escola. Um lugar para
todos.
Patto (1999, p.149) diz que vemos a escola como uma área
certamente determinada pelos condicionantes sociais e econômicos
mais gerais, porém, ainda contando com um certo espaço
próprio, que lhe permite relativa autonomia na determinação
do sentido de sua ação na sociedade global. É
um equívoco pensar que o grupo, por mais integrado que esteja
possa suportar a carga de ações políticas opressoras,
centralizadoras e desarticuladoras, mas é necessário
pensar que a educação enquanto função
social mobilizadora necessita pensar seus caminhos.
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