A
Queixa Escolar por quem não se queixa - O Aluno Carmen Tereza Gonçalves Trautwein (Universidade São
Marcos- SP) carmentereza@bol.com.br
As
Unidades Básicas de Saúde (UBS) da Prefeitura Municipal
de São Paulo (PMSP), recebem inúmeras queixas de dificuldades
de aprendizagem trazidas por mães de alunos, que buscam no
atendimento psicológico destas unidades, a solução
para tais queixas.
Esta
realidade despertou–nos o desejo de pesquisar as dificuldades
de aprendizagem enquanto tema de conexão da Saúde
com a Educação na rede pública. Embora este
tema já tenha sido tratado por muitos autores, sob diversos
aspectos, desde a década de oitenta não o foi sob
o olhar do aluno. Adotamos a abordagem do ponto de vista da criança
e nos inspiramos na leitura do texto de Andreazi que ao lançar
um olhar sobre a escola pública questionou-se:
"Como
o aluno se percebe em termos de competências e dificuldades?
Que nível de compreensão tem e que juízo faz
do que está indo fazer todos os dias na escola? Como percebe
o professor - agente de mediação entre ele e o conhecimento
sistematizado? Como se faz presente nas falas, nos gestos e no projeto
de vida que seus professores organizam?” (1992:75).
O
objetivo de nossa pesquisa foi, portanto, compreender que sentido
as crianças constróem sobre si quando encaminhadas,
pelo professor ou coordenador da escola, a um serviço de
atendimento psicológico, com queixas escolares ou dificuldades
de aprendizagem, tomando como referencial teórico a abordagem
sócio-histórica. Seguimos o alerta dado por Vygotsky
(1982) de que para compreender um processo interno, como é
o caso do sentido, para além da simples aparência,
é necessário exteriorizá-lo, relacionando-o
com alguma outra atividade exterior. Assim é que o autor
russo (2000) aponta a palavra com significado como unidade de análise,
pois encerra as propriedades do pensamento, constituindo-se em uma
mediação deste.
Realizamos
uma pesquisa qualitativa com cinco alunos de escolas públicas,
de 8 a 12 anos de idade, encaminhados para uma Unidade Básica
de Saúde do município de São Paulo. Utilizamos
entrevistas semi-estruturadas individuais e coletivas como instrumento,
procurando, de acordo com sugestão de Souza (1996), atender
e entender a dificuldade de aprendizagem a partir do ponto de vista
do aprendiz: como se percebem no processo de aprendizagem e como
se sentem percebidos por suas famílias e pelos profissionais
com os quais interagem.
O
fato de dar voz aos alunos entrevistados mostrou ser instrumento
significativo na mediação das dificuldades de aprendizagem
com seus possíveis portadores. Os alunos entrevistados explicitaram
interações sociais que lhes forneceram elementos para
constituírem sentido de que são responsáveis
por suas dificuldades. Contraditoriamente, não se colocam
como incapazes, demonstrando ao contrário, enorme vontade
e capacidade para aprender. Pensam de forma prospectiva, confiam
que ainda irão aprender, acreditam na escola e demonstram
ansiedade positiva em relação à escolarização.
Verificamos
que os participantes constróem sentidos próprios a
respeito de seus processos de aprendizagem. Tais sentidos se configuram
como individuais embora tenham se constituído a partir do
significado que é social. Para esta configuração
eles utilizaram elementos significados por seus professores, e especialmente,
por suas famílias.
Frente
às colocações dos alunos, o psicólogo
tem papel fundamental quanto às dificuldades ou queixas escolares,
pois com ele os alunos encontram ajuda, seja para intermediar suas
relações na escola ou facilitar a aprendizagem com
uma outra metodologia. Embora as crianças apontem a importância
do atendimento psicológico, é preciso tomar cuidado
e não incorrer nos riscos de fazer uma interpretação
apressada.
Mesmo
que seja alta a expectativa em relação ao trabalho
do psicólogo, constatamos que estes participantes necessitam
de escuta, ensino, atenção, apoio e justiça
nas escolas onde estão sendo vítimas, pois estas cultivam
suas pretensas dificuldades de aprendizagem e buscam a confirmação
no trabalho do psicólogo.
Por
outro lado, aceitar o pedido de atendimento da forma como tem se
dado, restringindo-o ao aluno, seria reforçar a idéia
de que a escola vem desenvolvendo um trabalho adequado às
necessidades educacionais e não precisa ter suas relações
pedagógicas questionadas, tal como já foi apontado
por autores como Patto (1984, 1990), Machado (1996), entre outros.
Assim, torna-se necessário enfatizarmos a importância
de intervir na instituição escolar, para que o trabalho
do psicólogo amplie a consciência que os indivíduos
possuem sobre a realidade que os cerca, instrumentando-os para agir
no sentido de transformar e resolver as dificuldades que essa realidade
lhes apresenta (AGUIAR, BOCK & OZELLA, 2002).
Este
estudo, ao revelar o ponto de vista do aluno, nos trouxe elementos
para pensar como problematizar a intervenção do psicólogo
junto à comunidade escolar de forma a não cristalizar
as relações enquanto queixas. “A ciência,
como produção permanente de novas zonas de sentido
que definem novos níveis de inteligibilidade sobre os fenômenos
estudados, nunca aparece em versões terminadas ou finais”,
de acordo com González Rey (2002: X). Portanto, convidamos
os possíveis leitores deste estudo a pesquisarem novos sentidos
da relação aluno-professor-psicólogo; relação
esta que tem sido marcada como vimos nesse estudo, por papéis
bem definidos: O professor que encaminha ao psicólogo e este
que recebe o aluno que é encaminhado.
Referências
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profissional com adolescentes: Um exemplo de prática na abordagem
sócio-histórica. In: BOCK, A. M. B; GONÇALVES,
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SOUZA, M. P. R. de. A queixa escolar e a formação
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