Memória
de Vida de Idosos Institucionalizados: considerações
sobre percurso de intervenção por meio de escuta biográfica Kelly Regina Sobral (Universidade de São Paulo) sobralca@yahoo.com.br
Numa
sociedade em que ocorre a supervalorização dos atributos
da juventude, um espaço restrito é deixado para os
idosos, principalmente para aqueles que moram em instituições
e cujo corpo apresenta-se bastante debilitado, situação
dos participantes desta intervenção. O presente projeto
de extensão universitária procurou trazer a voz dessa
população, por meio da constituição
de um espaço de escuta biográfica, entendendo a memória
de velhos como trabalho, como uma função social a
ser valorizada. O trabalho foi realizado com oito moradores de um
pensionato em Guarulhos que abriga, em sua maioria, ex-portadores
de hanseníase. A intervenção foi realizada
durante o ano de 2004.
Por
meio de entrevistas individuais ora semidirigidas ora abertas, de
freqüência quinzenal, foram estabelecidos momentos de
escuta estimulantes da narração do vivido. Foi realizado
um roteiro inicial de perguntas, o qual se foi modificando e individualizando
a partir de cada encontro. Pôde-se perceber pela intervenção
que algumas lembranças dificilmente podem ser abarcadas por
um questionário pré-construído, por mais que
este seja planejado para facilitar uma conversa. Isso porque as
perguntas planejadas têm que ser suficientemente amplas para
abarcar as diferentes experiências; mas o que é comentado
espontaneamente no que se configura como um livre “bate-papo”
gera associações muito pessoais, e específicas,
que não poderiam ser evocadas por perguntas mais amplas.
Tal
como o método de abordagem adotado por Ecléa Bosi
na pesquisa que resultou no livro “Memória e Sociedade:
lembranças de velhos”, a principal base da intervenção
foi a formação de um vínculo de amizade e confiança
com os recordadores, vínculo que resulta de um amadurecimento
de quem deseja compreender a própria vida revelada do sujeito
(Bosi, 1995). Essa base é, simultaneamente, método
e resultado do trabalho.
A
amizade, segundo Arendt (2002), consiste na igualação
política, o que não quer dizer que os amigos se tornem
os mesmos, mas que se apresentam como iguais em um mundo comum;
trata-se de uma igualação que proporciona diferenciação,
singularidade, mantendo a alteridade, o que significa compreender
e respeitar a verdade inerente à opinião do outro,
compreender como e em que articulação específica
o mundo aparece a ele.
Ao
estabelecer uma relação de confiança, amizade
e troca de experiências entre uma jovem ouvinte e um narrador
idoso, configurou-se um espaço de co-educação
de gerações, isso porque a convivência transforma
a relação com o idoso, que deixa de ser visto como
o velho, mas como alguém com nome próprio, ou seja,
visto na sua singularidade. Dessa forma, a aproximação
de gerações reduz o preconceito etário, a intolerância
e a visão distorcida que os jovens possam ter em relação
ao velho, bem como que velhos possam ter em relação
aos jovens. Caminhar rumo à construção de uma
cultura em que haja espaço para esse tipo de relação
é trazer o velho de volta à dinâmica social
e possibilitar ao jovem, neste mundo caótico, certa direção;
é favorecer modos de transmissão do saber e da cultura,
que constroem a memória.Quando não é possibilitado
ao velho cumprir sua função social, não é
somente ele que sofre, a sociedade como um todo adoece.
Para
os depoentes, os encontros possibilitaram um outro olhar sobre a
velhice no sentido de que houve alguém que se interessou
por conhecer sua vida, sua condição e que luta por
modificá-la. Foi uma experiência singular de escuta
na vida desses pensionistas, pessoas com uma trajetória de
invisibilidade, uma história de sofrimento político.
A intervenção consistiu num espaço para, ao
menos, algum tipo de aparição do uso da palavra enquanto
uma forma de dar existência às suas memórias.
Esse trabalho de elaboração de memórias na
presença de um ouvinte pode processar a libertação
de uma angústia e a liberação de novas significações
para a experiência, ter caráter psicoterapêutico
quando o sujeito sente-se ouvido de forma a ouvir a si mesmo (Frochtengarten,2002).
O
passado significa de formas diferentes para as pessoas. Cada um
traz lacunas ou ênfases com relação a alguns
eventos, apagando o que fez sofrer em certos momentos, repetindo
alguma situação de muita felicidade ou de muito sofrimento,
apagando ou repetindo situações que tenham rompido
bruscamente com cotidiano. A repetição, às
vezes, significa permanecer no mesmo lugar, e às vezes é
ir, pouco a pouco, se escutando e elaborando.O modo como se intervém
também é responsável, em parte, pelo modo como
o depoente irá construir a narrativa. Algumas perguntas remetem
mais à experiência da concretude do tempo que outras.
Iniciar a pergunta com “Você lembra” ou “Você
pode me contar” , por exemplo, é algo que se mostrou
impulsionador do trabalho da memória.A pergunta “Como
o senhor/senhora conheceu (fulano)” é também
freqüentemente uma pergunta que remete à lembrança
concreta. Também se mostrou relevante fazer mais de uma pergunta
dentro de um mesmo tema, ajudando a assentar a memória do
depoente.
Mediadores
podem ser utilizados como facilitadores para a construção
da narrativa. Diversos encontros de memória iniciavam-se
a partir do contar de sonhos tidos pelo depoente, sonhos que se
referiam a um cotidiano vivido anos atrás; tais sonhos parecem
atuar para esses idosos, assim como nas narrativas, como forma de
elaboração do passado.Ter fotos antigas como intermediárias
é outra forma que permite germinar as lembranças.
Um encontro deste tipo com uma das pensionistas foi essencial, já
que seus parentes procuravam evitar que ela visse as fotos, sob
a justificativa de que esta sofreria ao ver os queridos que já
se foram; não perceberam, contudo, que ao privá-la
do sofrimento, dificultavam a sua elaboração. A pensionista
estava impedida de compartilhar alegria e dor. Ao tentar comunicar
suas lembranças aos familiares, estes procuravam meios de
abreviar ou até mesmo interromper as narrativas; não
estavam preparados para ser ouvintes.
Em
alguns momentos, a contribuição do ouvinte com a narração
de algo de sua história, com algo que possa se relacionar
ao quem vem sido relatado pelo depoente, abre seu espaço
de narrativa,isso porque lembrança “puxa” lembrança
e, além disso,é uma forma de demonstrar que se está
refletindo sobre o que está sendo contado, que o trabalho
de elaboração do depoente está produzindo um
trabalho de elaboração naquele que o está ouvindo.
Mudanças
nas narrativas puderam ser percebidas no decorrer da intervenção.
Narrativas, que inicialmente era abreviadas e enrijecidas, aos poucos
superam o trauma produzido por ouvidos desatentos e apressados,
e passam a ser tecidas com a liberdade do tempo.
A
narrativa, dentre tantas outras funções, pode configurar-se
como espaço para a elaboração de lutos, espaço
que foi bastante presente no percurso de intervenção.
Durante este ano de trabalho houve muitos casos de falecimento dentro
da instituição e algumas dessas pessoas tinham laços
afetivos com os depoentes. No encontro, abriu-se espaço para
lembrar sobre o que se viveu com o falecido, trazer à memória
a experiência vivida com estas pessoas. Após esse momento,
houve relatos de que tinha sido bom lembrar, que trazia conforto.Em
nossa cultura, há o imperativo de que se busque afastar rapidamente
os mortos do universo dos vivos; neste projeto foi possível
ver como o contrário é que serve à elaboração
do luto, o quanto é importante entrar em contato com algo
que pode estar sempre vivo, que é a lembrança da história
e do que foi vivido com aquele que se foi.
Algumas
perdas, contudo, são tão significativas que prejudicam
a comunicação com o passado, reclamando um árduo
trabalho psíquico que pode tomar a vida inteira (Frochtengarten,
2002).A viuvez, por vezes, é trauma de difícil elaboração.
Uma das depoentes expressa essa dificuldade ao relatar, inúmeras
vezes, o episódio da morte do marido, que aparece sempre
com a mesma estrutura narrativa. Durante a intervenção,
por meio de perguntas, procurou-se fazer com que ela pudesse narrar
aspectos que não estavam na narrativa já pré-estruturada;
dessa forma, puderam surgir outras lembranças; contudo, seu
desejo continuou preso a um passado que não pode retornar,
talvez porque como diz Bosi (1995, p.431) “As restrições
e empobrecimento que pesam sobre a velhice tornam inestimável
o que se perdeu”.Foi evidente, no entanto, a importância
de um ouvinte disposto a ouvir repetidas vezes sobre os últimos
momentos vividos pelo esposo, trilhar com a pensionista essas tentativas
de elaboração.
A
exclusão social do velho, principalmente do velho que sofre
de alguma doença, parece ter relação com a
maneira como se lida atualmente com o momento da morte, de forma
a excluí-la do cotidiano.Nega-se, anula-se o velho em função
da negação da morte.Segundo Benjamin (1994, p.207)
“é no momento da morte que o saber e a sabedoria do
homem e sobretudo sua existência vivida – e é
dessa substância que são feitas as histórias
– assumem pela primeira vez uma forma transmissível”.
Dessa forma, negando a morte, a sabedoria de quem já viveu
bastante é desvalorizada e só há espaço
para o novo, para a informação resumida e descartável.
Se
a velhice é atualmente uma das categorias marginalizadas
da sociedade, morar em uma instituição asilar significa
a potencialização dessa restrição. O
tempo se preenche penosamente pelas ações rotineiras
de dormir, comer, repousar, entremeadas, quando muito, por atividades
passivas tais como audiência a radio e televisão, ou
outras atividades como oficinas de pintura, jogos de dominó,
que dificilmente possuem um significado para o idoso que vá
além do objetivo de ocupar o tempo. Apesar da autorização
para saírem do pensionato, são poucos os que o fazem,
pois a instituição não possui infraestrutura
necessária para a saída dos deficientes físicos,
que são maioria.Na fala dos depoentes foi explicitado o mal-estar
causado pela passividade da vida institucional. Contudo, permanece
um profundo sentimento de gratidão pela instituição,
pois os pensionistas têm consciência de que não
possuem alternativa melhor de moradia. A hostilidade para com a
instituição, não raro, acaba por ser projetada
aos pares, ocasionando uma relação de tensão
entre os pensionistas, em que prevalece a desconfiança, a
inimizade, o conflito.
É
de extrema importância que se configure um pensar crítico
sobre a problemática da velhice em geral e da instituição
asilar em particular. A transposição de alguns aspectos
do percurso trilhado pela abordagem crítica em psicologia
escolar, que tem uma visão institucional da queixa escolar,
para a análise dos problemas que cercam a velhice, traz elementos
que em muito contribuem para o avanço da reflexão
sobre a questão. Será a velhice ou as condições
sociais dadas a ela que, por vezes, incapacitam, adoecem e levam
à infelicidade? Tal como ocorre no processo de culpabilização
do aluno pelos problemas de aprendizagem, é comum o idoso
ser responsabilizado por sua situação. O conhecimento
e as práticas psicológicas são, em grande parte,
responsáveis pelo mascaramento dos reais problemas que devem
ser enfrentados para modificar tal condição.
A
predominância do modelo clínico psicológico
ao lidar com problemas de aprendizagem como também da velhice
reflete uma visão de mundo que explica a realidade a partir
de estruturas psíquicas e encobre as influências e/ou
determinações das relações institucionais
e sociais sobre o psiquismo, dando margem aos estereótipos
e preconceitos e a manutenção do status quo (Souza,
1997). A instituição asilar está inserida num
determinado tipo de sociedade, sociedade esta que marginaliza o
velho, e que utiliza a psicologia como instrumento de legitimação.
É preciso clarificar com qual projeto de sociedade e de homem
tal instituição está comprometida, compreendendo
que o combate verdadeiro ao sofrimento do idoso só pode advir
do compromisso com a luta por uma sociedade democrática e
com qualidade social, que rompe com a visão tradicional adaptacionista.
Nessa luta, dar voz a essa população, por meio da
escuta de suas memórias é um modesto, mas importante
começo.
Para
finalizar, resta dizer que participar como ouvinte de narrativas
foi uma aprendizagem de escuta para a interventora. Como já
fora alertado por Benjamim, numa sociedade onde a arte da narração
está em extinção, também se perde a
capacidade de ouvir no sentido de experimentar o outro.Ouvir é
trabalho e é um constante processo de aprendizagem; exige
preparação para um desprendimento de si que permite
encontrar o outro.
O
projeto foi um importante exercício de (re) aprender a ouvir,
habilidade essencial a qualquer profissional de psicologia. Numa
sociedade acelerada, panfletária, em que tudo tem que ser
dito resumidamente, não há tempo para compartilhar
o que se viveu. Com isso, desaprende-se a ouvir. Somos levados por
um pensamento generalizante, classificatório, em que não
é possível depreender da narrativa qualquer significado
mais profundo. Mas quando o ouvinte se arrisca a navegar no mundo
narrado junto com o depoente enquanto conta a sua experiência,
a escuta é completamente diferente; este vai, junto com o
narrador, ao tempo concreto, reencantando seu próprio mundo
com a riqueza das narrativas, a sua poesia, a sua sabedoria. Fica
aqui um convite aos leitores desse boletim: que cultivem o hábito
de contar e ouvir histórias de vida, readquirindo assim a
importante capacidade humana de intercambiar experiências.
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e Educacional.
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