A
emissão de laudos no período de aquisição
da linguagem escrita Simone Laisse Pereira (UNIVALI - SC) simonelaisse@brturbo.com.br
Muitos
professores alfabetizadores, no exercício da sua profissão,
têm
pouca compreensão do processo de leitura e escrita que, aliada
à falta de experiência docente, pode dar suporte a
uma interpretação errônea da aprendizagem da
criança. Trabalhando numa escola pública, como Fonoaudióloga,
vi-me diante de uma realidade sobre alunos que apresentam atrasos
em relação aos seus colegas. E a questão se
apresenta: dificuldade ou distúrbio? Num levantamento feito
nesta escola, constatou-se que é freqüente o encaminhamento
pelas professoras a especialistas principalmente a neurologistas,
procurando explicações para as dificuldades das crianças
na aquisição da linguagem escrita. Nestes laudos médicos
voltados à escola, 100% dos casos foram diagnosticados como
distúrbio, a maior parte, dislexia. A partir da emissão
destes laudos, famílias e os professores rotularam essas
crianças, que aos poucos assumiram um perfil de crianças-problema
e, algumas, acabaram recebendo medicação.
Em busca de respostas a situação que se apresentava
na escola, com relação à emissão dos
laudos, realizou-se uma pesquisa em nível de mestrado, cujo
objetivo foi caracterizar/comparar as habilidades cognitivas na
aquisição inicial da linguagem escrita de crianças
consideradas portadoras de distúrbio (com laudo) e outras
consideradas como bons alunos por suas professoras.
Participaram desta pesquisa 40 crianças de uma escola pública,
cuja clientela em grande parte possuem uma situação
sócio-econômica baixa e os pais, escolaridade de ensino
fundamental incompleto.
A 1ª etapa da pesquisa constou de uma conversa informal com
as professoras sobre as crianças que apresentavam baixo rendimento
escolar e foram encaminhadas a um especialista, num total de 20
crianças nesta situação. Logo após,
foi solicitado para que estas mesmas professoras indicassem outras
20 crianças, as quais considerassem como bons alunos em linguagem
escrita.
Na 2ª etapa aconteceram as aplicações das tarefas,
a fim de identificar semelhanças/diferenças nas habilidades
cognitivas na aquisição inicial da linguagem escrita
nos dois grupos de sujeitos pesquisados.
As tarefas utilizadas foram: - Escrita Espontânea, - Conhecimento
de letras/ nome da letra, - Produção de palavras,
- Identificação do som da letra inicial de palavras
pronunciadas oralmente, - Consciência Fonológica –segmento
inicial e final, - Memória de frases, - Memória de
dígitos, - Memória de dígitos, - Memória
de relatos, - Identificação de absurdos, - Identificação
de absurdos, - Definição de palavras, - Organização
Sintático-Semântica e Correções gramaticais.
Como resultado, constatou-se que, as crianças consideradas
com distúrbios, não apresentaram diferenças
cognitivas significativas no desempenho das tarefas de escrita espontânea,
nome da letra, memória de frase, memória de dígitos,
memória de relatos, identificação de absurdos,
definição de palavras e correções gramaticais,
em relação a seus colegas do grupo considerado como
bons alunos.
As diferenças encontradas no desempenho das crianças
dos dois grupos estudados, foram no desempenho de quatro tarefas:
produção de palavras, som da letra, consciência
sintático-semântica e consciência fonológica.
Nestas tarefas coincidiu que as crianças indicadas como bons
alunos foram aquelas que obtiveram melhores desempenhos e as diagnosticadas
com dislexia, obtiveram desempenho inferior nas quatro tarefas,
porém foram encontradas exceções nos dois grupos.
Crianças que obtiveram laudos de distúrbio, obtiveram
em algumas dessas quatro tarefas, desempenho melhor que as crianças
consideradas como bons alunos e o contrário também
aconteceu.
Esse resultado nos faz refletir sobre a avaliação
das professoras. Antes de elaborarem estratégias para trabalhar
em sala de aula com as crianças que apresentam maior dificuldades,
acabam por encaminhá-las a um especialista. Este encaminhamento,
muitas vezes, pode estigmatizar a criança como sendo portadora
de distúrbio. Portanto passível de uma intervenção
médica apenas.
Mesmo tendo encontrado diferenças no desempenho das quatro
tarefas citadas, e estas diferenças terem coincidido com
a indicação das professoras, isto não representa
a confirmação de que as avaliações das
professoras estejam corretas e, muito menos, o laudo do especialista.
É importante ressaltar que estas quatro tarefas estão
relacionadas a habilidades metalingüísticas. A literatura
indica que as habilidades metalingüísticas estão
relacionadas com o sucesso na aquisição da linguagem
escrita (BARRERA, 2000; YAVAS, 1988; TUNMER E OUTROS, 1988; CAPOVILLA,
1999; MORAIS, 1996; BRYANT; BRADLEY, 1985; GUIMARÃES, 2001;
CORDEIRO, 1999) e dificuldades acerca dessas habilidades sugerem
um baixo desempenho nas atividades de leitura e de escrita. Estes
estudos também indicam que estas dificuldades, muitas vezes,
são características do processo de aprendizagem da
linguagem escrita e não configuram um problema de ordem neurológica.
A diferença mais determinante entre os dois grupos foi em
consciência fonológica, confirmando o que em termos
teóricos não é novidade. Tunmer, Nesdale e
Wrigt (1987), Bryant e Bradley (1985), Maluf e Barrera (1997) apontam
a consciência fonológica como a habilidade metalingüística
mais importante para a aquisição da leitura e da escrita.
Nesse sentido, os resultados deste estudo sugerem que a diferença
encontrada entre os dois grupos foi nas habilidades metalingüísticas
e, ao que parece, por falta de estimulação dessas
habilidades, de conhecimento acerca deste tema por parte das professoras,
levando a ausência de critérios para avaliação
da linguagem escrita.
Em geral o professor no exercício de sua função
tem desconhecido o processo de leitura e escrita e, a partir disso,
tem procedido a uma interpretação equivocada à
aprendizagem da criança. Não percebe o aluno como
um ser que não se constitui só pelos ensinamentos,
mas pelas suas próprias experiências e tentativas entre
o erro e o sucesso.
Do ponto de vista construtivista, as crianças são
facilmente alfabetizáveis, desde que descubram, através
de contextos funcionais sociais, que a escrita é um objeto
interessante e merece ser conhecido. Quem complica, na verdade,
são os adultos, imaginando seqüências idealizadas
de progressão cumulativa, construindo definições
de fácil e de difícil, sem levar em conta o que seria
fácil e difícil para a pessoa mais importante desse
processo: a própria criança. Isso tudo tornou o processo
mais difícil, produzindo fracassos escolares e estigmatizando
um grande número de pessoas, transformando a experiência
da alfabetização em algo traumático para muitas
crianças (FERREIRO, 1992).
Durante décadas, pensou-se na escrita como técnica
que precisaria de um treinamento específico e a humanidade
inventou a escola como instituição encarregada de
transmitir esse treinamento. Mas como as crianças concebem
a escrita? Como uma técnica ou como um objeto do conhecimento?
Enfim, o que se pode sugerir como reflexão é, considerar
antes de julgar as crianças, que elas são diferentes
em diversos aspectos, social, cultural, econômico e, sobretudo,
no processo de construção do conhecimento. É
necessário compreender este processo para que os equívocos
não sejam constantes e continuem promovendo a lógica
da exclusão.
Referências
BARRERA, S. D. Linguagem oral e alfabetização: um
estudo sobre variação lingüística e consciência
metalingüística em crianças da 1ª série
do ensino fundamental. São Paulo, 2000. 225 p. Tese (Doutorado)
- Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.
BRYANT, P.; BRADLEY, L. Children’s reading problems. Oxford:
Blackwell, 1985.
CAPOVILLA, A. G. S. Leitura, escrita e consciência fonológica:
desenvolvimento, intercorrelações e intervenções.
262 p. Tese (Doutorado) - Instituto de Psicologia, Universidade
de São Paulo, São Paulo, 1999.
CORDEIRO, M. H. V. Towards the understanding of the alphabetic principle.
280 p. Doctoral (Thesis) - Institute of Education, University of
London, London, 1999.
FERREIRO, E. Com todas as letras. São Paulo: Cortez, 1992.
GUIMARÃES, S. R. K. Dificuldades na aquisição
e aperfeiçoamento da leitura e da escrita: o papel da consciência
fonológica e da consciência sintática. 269 p.
Tese (Doutorado) - Instituto de Psicologia, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2001.
MALUF, M. R.; BARRERA, S. D. Consciência Fonológica
e linguagem escrita em pré-escolares. Psicologia: Reflexão
e Crítica. Porto Alegre, 1997.
MORAIS, J. A arte de ler. São Paulo: UNESP, 1996.
TUNMER, W. E; NESDALE, A. R.; WRIGTH, A. D. Syntatic awareness and
reading acquisition. British Journal of Developmental Psycology.
Great Britain, v. 5, p. 25-34,1987.
TUNMER, W. E.; HERRIMAN, M. L.; NESDALE, A. R. Metalinguistic abilities
and beginning reading. Reading Research Quartely. v. 23,
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e Educacional.
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