O
Psicólogo Escolar e a formação de professores
para atuarem junto à família. Eulália Henriques Maimone (Universidade de Uberaba) eulaliamaimone@netsite.com.br
O
papel do psicólogo escolar na educação infantil
tem sido alvo de publicações, considerando que o desenvolvimento
infantil pode ser favorecido, em um trabalho conjunto entre psicólogo
e outros profissionais. Esse é o caso do estudo de Vokoy
e Pedrosa (2005), que mostra um modelo de atuação
do psicólogo fundamentado “no paradigma interdisciplinar,
contextual e crítico” (p.95).
O objetivo deste artigo é o de apresentar uma forma de trabalho
em uma creche, utilizando um procedimento de dinâmica de grupo,
em que foi privilegiado o lúdico, em colaboração
com pais e professoras, uma vez que, em função de
necessidades de trabalho, mães entregam seus filhos aos cuidados
de uma instituição infantil e pouco tempo têm
para brincar com eles.
A
preocupação de pesquisadores, como Bronfenbrenner
(1996), é a de que a família e a instituição
sejam tomadas isoladamente, em estudos sobre o desenvolvimento humano,
uma vez que a criança, a partir de quando ingressa em uma
instituição infantil, passa a atuar em um novo contexto
de desenvolvimento, que se forma nesse momento, a que ele denominou
de mesosistema, apresentando características dos dois contextos:
o da creche e o da família, de onde provém a criança
da creche. Assim, faz-se relevante que ambos os contextos sejam
considerados, no sentido de compreendê-los em conjunto. Nesse
sentido, utilizando o brincar como atividade mediadora, procuramos
buscar a colaboração de participantes dos dois contextos:
pais e professores.
Em trabalho anterior (Maimone & Nogueira, 2005) verificamos
que uma das necessidades das famílias dessa creche era acompanhar
o desenvolvimento dos seus filhos, já que as reuniões
de pais, que aconteciam durante o ano, não tratavam a respeito
disso, sendo mais burocráticas e administrativas. Notamos
também que a concepção sobre o brincar de pais
e professoras da creche era de que o brincar não se constituía
como oportunidade de aprendizagem e de desenvolvimento, mas apenas
como pausa nas experiências de ensino/aprendizagem.
Isso
nos informou acerca da concepção sobre educação
infantil ali presente, como uma “extensão para baixo
da escola”, no dizer de Figueiredo (2002). Por outro lado,
o pessoal da escola alegava que os pais exigiam atividades tipo
escola para os filhos, que freqüentavam a creche. Queixavam-se
também da falta de participação dos pais e
que mães não atendiam às solicitações
feitas nas reuniões. Dessa forma, o nosso diagnóstico
foi o de que as relações família-creche estavam
bem deterioradas, necessitando uma reavaliação, para
melhor orientar uma proposta de intervenção. Esse
aspecto da família tem sido foco de atenção
de pesquisadores, sendo mesmo considerado como uma das dimensões
da qualidade na Educação Infantil (Zabalza, 1998).
Além da dimensão família-creche, um dos mais
importantes trabalhos, visando a promoção da qualidade
na Educação Infantil, foi realizado na Inglaterra,
por Pascal e Bertram (1996) e por Laevers (1996), os quais propuseram
duas outras dimensões da qualidade da educação
proporcionada à criança pequena: o envolvimento da
criança e o empenho do adulto.
Por
meio de um diagnóstico das referidas dimensões, na
creche em referência (Maimoni, 2003), observamos que havia
muito pouco envolvimento das crianças de 3, 4 e 5 anos nas
experiências de aprendizagem propostas para serem desenvolvidas
em sala de aula, o que nos levou a supor que, quando a criança
não se envolve em uma atividade, talvez seja porque essa
atividade não esteja atendendo à sua necessidade de
brincar.
Isso
reafirmou nossa impressão de uma creche voltada ao modelo
de escola, referido acima, em que o brincar não é
visto como a atividade principal da criança, antes da idade
escolar, tal como o propõe Leontiev (1988a). Também
ficou evidente que faltava empenho de várias das educadoras,
pois seu estilo mediacional situava-se em um nível que não
estimulava a autonomia da criança (Maimone, 2005). De acordo
com Oliveira e colaboradores (1992), o educador precisa ter sensibilidade
para perceber o estilo e o ritmo de aprender de cada criança;
como as mesmas ocupam o espaço físico, como são
estimuladas a examinar, explorar e construir significações.
Considerando também o que Stoltz (2005) observou em sua pesquisa
sobre crianças pequenas, de que elas sentem necessidade de
momentos de fazer conjunto e que o brincar estava precisando ser
mais bem atendido nessa creche, foi escolhida uma dinâmica
de grupo, que pudesse suprir essas necessidades infantis, bem como
aquela dos pais de acompanhar o desenvolvimento do seu filho na
creche.
Pretendendo que o brincar junto pudesse ser uma oportunidade de
formar professores, para poderem lidar com aspectos da família
e do brincar na instituição, essa dinâmica foi
desenvolvida de forma colaborativa com o pessoal da creche. Nos
muitos encontros com as professoras, dentro de um projeto com a
duração de cinco anos , foi verbalizado que também
elas estavam insatisfeitas com as reuniões de pais.
Tomando como referência a Pedagogia histórico-crítica,
de Saviani, a partir da proposta apresentada por Mazzeu (1998),
acreditamos que:
Esse
referencial possibilita compreender de modo articulado tanto o processo
de aprendizagem do aluno, quanto o processo de formação
de professores e demais agentes da prática educativa.
[...] Para conseguir que os alunos se apropriem do saber escolar
de modo a se tornarem autônomos e críticos, o professor
precisa estar, ele próprio, apropriando-se desse saber e
tornando-se cada vez mais autônomo e crítico. (p. 61).
Com
base nesse referencial, procuramos conhecer a experiência
de cada professor e valorizá-la, sem, contudo, permanecermos
apenas na forma de ação própria do cotidiano
da professora. A prática social das professoras era apenas
o ponto de partida, que era vídeo-gravada, para posterior
discussão.
Assim, acreditando na importância do saber experiencial das
professoras, foram iniciadas as dinâmicas de grupo por turma,
com pais e crianças, coordenadas pelas professoras das crianças
de 3, 4 e 5 anos, com o auxílio de bolsistas de iniciação
científica do curso de Psicologia e uma mestranda do Programa
de Mestrado em Educação, da Universidade de Uberaba,
especialista em psicopedagogia e em arte-educação.
A preparação das dinâmicas de grupo acontecia
na semana anterior à execução, quando a professora
de uma das turmas expunha como pretendia fazer as atividades do
“brincar junto”, com pais e crianças. Na ocasião,
eram enviados convites por escrito para os pais. Estes já
haviam vivenciado algumas experiências fora da sala de aula,
coordenadas pelas pesquisadoras, tendo avaliado as mesmas como prazerosas
e solicitando que a direção da creche promovesse outras
situações semelhantes.
Esses momentos de preparação serviam também
para que as psicólogas pudessem socializar com as professoras
conhecimentos científicos da área, em especial textos
de autores da Psicologia Histórico-cultural, sobre o brincar,
a zona de desenvolvimento próximo e a importância do
estilo mediacional da educadora. Vídeos eram vistos e discutidos
sobre a prática de cada uma e sugestões eram feitas
coletivamente, para melhorar essa prática. Após cada
dinâmica, os pais, mães ou responsáveis presentes
avaliavam a atividade.
Mesmo com a grande rotatividade das professoras da creche, informações
sobre o que vinha acontecendo eram repassadas, de modo assistemático,
para as que chegavam a cada ano, pelas que permaneciam, ou mesmo
pela direção e assistência pedagógica,
que passaram por mudança de pessoal apenas uma vez.
A avaliação final desse trabalho mostrou a possibilidade
de uma nova dinâmica nas relações família-creche,
bem como uma mudança da concepção sobre o brincar
na instituição e entre os pais que participaram desses
momentos. Os professores, que não receberam formação
inicial para atuarem com as famílias dos alunos, tiveram
oportunidade para completarem sua formação em serviço,
em um processo de formação continuada, com a contribuição
de alguns dos referenciais da Psicologia.
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