Valorizaçao
Do Trabalho Do Professor E A Escola De Vigotski Marilda Gonçalves Dias Facci (Universidade Estadual
de Maringá) marildafacci@wnet.com.br
Desde
1988 temos trabalhado na área de Psicologia Escolar e nesse
período chegamos a conclusão de que compreender a
formação e atuação do professor constitui-se
em um ponto fundamental para aqueles profissionais - entre eles
o psicólogo - que pretendem intervir no âmbito educacional.
A constatação desse aspecto nos encaminhou, no doutorado,
a pesquisar essa temática (FACCI, 2004), estabelecendo como
objetivo para o estudo fazer uma análise crítico-comparativa
entre o a Teoria do Professor Reflexivo, o Construtivismo e a Psicologia
Vigotskiana, no que se refere às implicações
dessas três teorias para a caracterização do
trabalho do professor. O ponto fundamental da pesquisa era compreender
em que medida há, nessas abordagens, a valorização
ou o esvaziamento da atividade docente, utilizando como referência
os conhecimentos produzidos na Psicologia Histórico-Cultural
ou Sócio-Histórica.
Por que abordar tal temática relacionada ao trabalho docente,
se parece tão óbvio que cabe ao professor ensinar?
Essa questão não parece estar muito clara nesta transição
do século XX para o século XXI - período no
qual a sociedade passa por um processo da globalização,
desenvolvimento acelerado da internacionalização do
capital, criando um "novo cenário", caracterizado,
entre outras dificuldades, pelo desemprego e pouco investimento
à educação. Segundo Saviani (1996), nos defrontamos
com a crise da modernidade. Cada vez mais, é jogada sobre
os nossos ombros a "culpa" por não estarmos "integrados",
"adaptados" a essa nova situação de globalização
no pós-modernismo. Os preceitos neoliberais estão
arraigados em nossa sociedade conduzindo à busca de explicações
com enfoque individualizante para questões que são
essencialmente sociais e históricas. Teorias psicológicas
e tendências pedagógicas também acabam ficando,
neste contexto, condicionadas aos "modismos" na educação,
deixando de primar, em muitos casos, por fundamentos filosóficos
e epistemológicos consistentes. Por decorrência destas
situações e de demais situações produzidas
pelo processo histórico, a crise se torna presente na escola
e também na prática docente.
Quando analisamos a bibliografia que tratam do tema enfocado neste
texto, identificamos que no final da década 1980, segundo
Nóvoa (1995, p. 15), começaram a ocorrer estudos que
tiveram o mérito de "recolocar os professores no centro
de debates educativos e das problemáticas da investigação"
e a perspectiva do professor reflexivo começou a ser difundida
nos meios educacionais. Alarcão (1996, 2001), esclarece que,
nessa década, as idéias de Donald Schön foram
muito difundidas, provocando considerações sobre essa
perspectiva. Schön fundamentou suas pesquisas na teoria da
indagação de John Dewey, que muito influenciou o pensamento
pedagógico contemporâneo e o movimento da Escola Nova.
A proposta de formação de professores reflexivos salienta
o aspecto da prática como fonte de conhecimento através
da reflexão e experimentação.
Zeichener e Liston, nos Estados Unidos, também trabalham
com a perspectiva do professor reflexivo. No entanto, seus estudos
distinguem-se dos de Schön. Eles partem da teoria desenvolvimentista,
pautada nos processos de desenvolvimento e aprendizagem com base
construtivista. Para estes autores, a reflexão não
é um ato solitário, como Schön propõe,
mas um ato coletivo. Enquanto Schön trata de um professor prático
reflexivo, Zeichner (1993) entende o professor como investigador,
cujo papel é mais auxiliar os alunos a construir o saber
do que transmitir conhecimentos.
Uma outra perspectiva dentro da abordagem do professor reflexivo
é a cognitivista, cujo representante é Shulman (1986),
que retoma as discussões em torno da questão dos conhecimentos
que os professores têm do conteúdo e da forma como
estes conteúdos transformam o ensino.
Na Teoria do Professor Reflexivo a prática deve ser entendida
como o eixo central do currículo, cuja ênfase deve
estar na preocupação com a experiência pessoal
e com o desenvolvimento profissional dos professores. Alarcão
(1996) Chakur (2001) consideram que nessa perspectiva a formação
e o trabalho do professor estão embasados em um referencial
epistemológico muito próximo ao Construtivismo, no
qual o professor é encarado como facilitador da aprendizagem.
As idéias de Piaget - considerado o "pai" do Construtivismo,
começaram a serem divulgadas, com muita ênfase, nos
meios educacionais, a partir da década de 1920 e tem permeado
estudos que tratam da formação e atuação
do professor na atualidade. Piaget dá sustentação
científica à escola ativa , defendendo princípios
como respeito à atividade do aluno, cooperação
e solidariedade, autonomia, importância do trabalho em grupo.
Para o pensador suíço, a aprendizagem refere-se ao
processo de constituição das estruturas operatórias
do pensamento. O desenvolvimento é privilegiado em detrimento
da aprendizagem, sendo responsável pela aprendizagem e antecedendo-a.
A educação deve levar os alunos a um maior grau de
desenvolvimento. Para Coll (1987, p. 177), "adotar este ponto
de vista equivale, de fato, a relativisar a importância dos
conteúdos escolares, que passam a ter interesse em função
da contribuição em favor do desenvolvimento; a ênfase
é colocada nas competências intelectuais, nos instrumentos
cognitivos, no amadurecimento da personalidade". Piaget (1988a,
p. 61) afirma que "o objetivo da educação intelectual
não é saber repetir ou conservar verdades acabadas
[...]", mas sim levar o aluno a construir conhecimento. É
a ação do aluno sobre o meio, baseado na sua percepção,
que leva ao conhecimento.
No que se refere ao trabalho do professor, na abordagem construtivista,
podemos dizer que, conforme cita Lima (1997, p. 106-107), "o
problema do educador é estimular a criança para que
ela exerça seu poder de assimilação acomodação
[...] o papel do professor é criar situações
que estimulem o processo construtivista do organismo com vistas
à elaboração de estruturas fundamentais de
caráter universal das quais dependem as aquisições
de habilidades diversas [...]". Juan Delval (1998, p. 34),
quando levanta as teses sobre o Construvismo cita que "a afirmação
de que o professor é quem ensina é contrária
a uma posição construtivista". Portanto, o papel
de adulto reservado ao professor é criar situações
para que os alunos aprendam, pois é o sujeito, em última
instância, que é responsável pela construção
do conhecimento, partindo dos conhecimentos prévios para
qualquer nova aprendizagem.
Quanto à formação dos professores numa abordagem
construtivista, pode-se afirmar que assim como o aluno constrói
o conhecimento, o mesmo acontece com o professor. Os professores
devem passar por experiências de aprendizagem para confrontar
suas experiências particulares, suas crenças tradicionais,
seus conhecimentos sobre o desenvolvimento psicológico das
crianças. É compartilhando suas experiências
com outros educadores, que os professores podem questionar, refletir
e construir a prática pedagógica nos moldes construtivistas,
com novas perspectivas pedagógicas (Fosnot, 1998a, 1998b).
Numa outra perspectiva teórica, com fundamentos teórico-metodológicos
marxista, diferentemente da proposta de formação de
um professor reflexivo e da abordagem Construtivista, delineiam-se,
a partir da Psicologia Histórico-Cultural e da Pedagogia
Histórico-Crítica, possibilidades de refletir sobre
o próprio significado do processo educativo na humanização
do indivíduo e sobre a contribuição do professor
nesse processo. Saviani (2003) e Duarte (1993) entendem que a educação
é um processo mediador entre a vida do indivíduo e
a história. A escola, nesse processo de humanização,
faz a mediação entre os conteúdos historicamente
produzidos pela humanidade e o aluno, procurando formas para que
esses conhecimentos sejam apropriados pelos indivíduos, contribuindo
para a formação de novas gerações de
seres humanos.
Coerente com os fundamentos filosóficos da Pedagogia Histórico-Crítica
temos a Psicologia Histórico-Cultural, desenvolvida inicialmente
por Vigotski (1896-1934) e por demais pesquisadores - Leontiev,
Luria, Galperin, Elkonin, Davidov, entre outros - cujos estudos
vem oferecendo várias contribuições ao estudo
do desenvolvimento do psiquismo humano e sua relação
com a educação. De acordo com essa perspectiva, o
ensino tem um papel central em todo o sistema de organização
da vida da criança, determinando seu desenvolvimento psíquico,
pois constitui uma via, um meio sistematizado e organizado de transmissão
da experiência social. Para Vigotski (1991, 1993), a aprendizagem
é um momento necessário e universal para que se desenvolvam
na criança as características humanas formadas historicamente.
O professor contribui para a aprendizagem e, conseqüentemente,
para o desenvolvimento do aluno. Ele tem uma função
mediadora que "é realizada a partir de ações
intencionais, conscientes, dirigidas para um fim específico
de propiciar a instrumentalização básica do
aluno de modo que permita que este conheça, de forma crítica,
a realidade social e que, a partir deste conhecimento, haja a promoção
do desenvolvimento individual" (Facci, 1998, p. 26). O processo
de desenvolvimento segue o processo de aprendizagem e este é
responsável por criar a zona de desenvolvimento proximal
(ZDP). Vigotski (1991, 1993) enfatiza que é intervindo na
ZDP que o professor provoca o desenvolvimento, pois ajuda o aluno
a efetivar aprendizagens.
Estas três abordagens acima mencionadas são responsáveis
por diversas produções teóricas na área
da formação e trabalho docente. Teorias que devem
ser analisadas criticamente pelos psicólogos escolares para
que estes não caiam em "armadilhas", uma vez que
se apresentando como valorizadoras do trabalho do professor, acabam,
em algumas situações, por destituí-los do significado
social de sua função de ensinar.
Traçando
algumas considerações
Neste momento, gostaríamos de levantar algumas questões
em relação às teorias expostas que nos provocaram
diversas reflexões durante a realização da
pesquisa. Uma delas refere-se ao que Pimenta (2002) apresenta quando
afirma que a apropriação generalizada da perspectiva
da reflexão, inclusive nas reformas educacionais no Brasil,
transforma o conceito professor reflexivo apenas em um uma expressão
da moda, uma vez que o despe de sua potencial dimensão político-epistemológica,
pois não se transforma em medidas para a efetiva elevação
do estatuto da profissão professor e para a melhoria das
condições escolares. Podemos dizer que o individualismo
da reflexão, a ausência de critérios externos
potencializadores da reflexão crítica e a excessiva
(e mesmo inclusiva) ênfase nas práticas acabam por
desvalorizar o trabalho do professor, uma vez que muito pouco é
citado, quando se trata do professor reflexivo, sobre a importância
dos conhecimentos científicos já produzidos pelas
várias ciências (Filosofia, Psicologia, Sociologia,
entre outras) na formação e na prática pedagógica
dos professores.
Uma outra preocupação em relação à
compreensão do papel do professor sob o ponto de vista prático-reflexivo
e também na formação construtivista refere-se
ao ato de ensinar que, nessas abordagens, não é enfatizado.
A aprendizagem, na Epistemologia Genética, se dá à
partir da ação do indivíduo sobre o meio, considerando-se
a percepção que ele tem da realidade - o aluno tem
que construir o conhecimento, enquanto cabe ao professor, apenas,
como o próprio Piaget (1988) afirma, ser um animador no processo
pedagógico. Não cabe a ele transmitir os conceitos
científicos, mas sim mediar ou facilitar o processo de aprendizagem
dos alunos, apresentando situações problemas a serem
resolvidas, acreditando-se, assim, possibilitar aos alunos uma autonomia
moral e intelectual.
Assim, nos cursos de formação de professores, nessas
perspectivas, o conteúdo não é enfatizado.
Diante dessa banalização na transmissão do
conhecimento, nos perguntamos: como o aluno pode se apropriar da
produção humana? Como poderá se humanizar?
Duarte (1993) afirma que o processo de humanização
se dá através da apropriação das objetivações
humanas, mas como se apropriar dessas objetivações,
se o que interessa não é o conteúdo, mas sim
a forma de aprender, como propõe o Construtivismo, ou mesmo
a reflexão da prática, como propõe a teoria
do professor reflexivo?
O Construtivismo e mesmo a concepção do professor
reflexivo apresentam um posicionamento negativo (Duarte, 1998) em
relação ao ensino como transmissão de conhecimento.
Podemos dizer que há um esvaziamento do trabalho do professor.
Do ponto de vista pedagógico essas duas abordagens teóricas
estudadas apresentam um forte vínculo com as idéias
originadas no movimento escolanovista. Por sua vez, a teoria vigotskiana
aponta para uma concepção do papel da escola e, conseqüentemente,
do professor no que se refere à apropriação
do conhecimento histórico e coletivamente produzido pelos
seres humanos. As análises desenvolvidas por Vigotski, referentes
à "formação dos processos psicológicos
superiores" e à "formação dos conceitos",
apóiam-se numa epistemologia materialista, dialética
e histórica, bastante distinta dos pressupostos epistemológicos
defendidos pelo Construtivismo e pela Teoria do Professor Reflexivo.
Consideramos que através dos estudos elaborados pela Escola
de Vigotski teremos condições de ter uma concepção
afirmativa do ato de ensinar (Duarte, 1998) e, portanto, enfocaremos
o trabalho docente a partir da valorização que deve
ter sua função mediadora entre o aluno e os conhecimentos
elaborados pela humanidade no processo histórico, superando
o esvaziamento provocado pela concepção do professor
reflexivo e do Construtivismo.
É contra esse esvaziamento que os psicólogos e profissionais
da educação devem empreender a prática e os
estudos acerca do trabalho do professor, pois, em última
instância, só faz sentido uma intervenção
na escola que compreenda como tarefa central do professor a transmissão
do saber objetivo, de forma a intervir na formação
das consciências dos indivíduos que passam pela escola
e, conseqüentemente, contribuir para o processo de humanização
dos mesmos. O psicólogo deve trabalhar em prol da socialização
do que melhor já foi produzido pelos homens no processo histórico,
pois a apropriação do conhecimento científico
provocará, nos alunos, o desenvolvimento dos processos psicológicos
superiores
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