Cadernos:
o que o seu conteúdo pode revelar sobre o contexto escolar? Anabela Almeida Costa e Santos (Universidade de São
Paulo) anabelas@uol.com.br
Quem
já passou pela escola sem nunca ter tido um caderno? Os cadernos
são objetos tão ligados à idéia de escolarização
que, mesmo em tempos de informatização, não
é possível imaginar uma escola que não utilize
cadernos. Tais materiais didáticos estão presentes
nas instituições de ensino em todos os níveis,
desde a pré-escola até à pós-graduação.
Apesar de serem tão presentes e utilizados, os cadernos não
têm sido objetos muito estudados. Tidos como algo 'natural'
no contexto escolar, sua presença e utilização
são comumente consideradas como algo certo e inquestionável.
No entanto, diferentemente de serem apenas suportes neutros para
a realização de tarefas e anotações,
os cadernos assumem importantes funções no cotidiano
escolar, interferem no modo como são estruturadas atividades
e exigências de saberes, assim como medeiam as relações
que se dão em torno do contexto de ensino.
Para professores, os cadernos funcionam como importantes fontes
de informações sobre os alunos e seus processos de
aprendizagem. E para os psicólogos, que trabalham direta
e indiretamente com as questões escolares, os cadernos podem
ser utilizados como objetos que revelam sobre o aluno e seu processo
de escolarização. Mas como entender o conteúdo
dos cadernos escolares?
Foi em busca de responder a esta pergunta e de compreender como
se dá o aprendizado da utilização desses importantes
instrumentos didáticos, bem como de identificar as funções
e significados que lhe são atribuídos em sua utilização,
que foi desenvolvida, em 2000, uma pesquisa etnográfica em
uma sala de aula de 1a série do Ensino Fundamental de uma
escola municipal da cidade de Hortolândia, interior de São
Paulo. A escola escolhida localizava-se em uma área pobre,
e atendia a quatro bairros resultantes de uma ocupação
ilegal de terras, era uma comunidade que começava a se estruturar
e, desta forma, convivia com a falta de recursos de várias
ordens. A oferta de vagas para pré-escola era muito pequena
e pouquíssimos dos alunos ingressantes na 1a série
tinham passado anteriormente pela escola. A professora que assumia
a sala, bastante jovem, nunca havia trabalhado com a 1a série
e nem com alfabetização. Ou seja, foram acompanhados
diversos processos de aprendizado. Os alunos aprendiam a forma escolar
de utilizar cadernos e a professora aprendia quais eram as dificuldades
de mediar tal processo.
À professora da escola parecia, inicialmente, 'natural' utilizar
cadernos. Algo que poderia ser aprendido de modo intuitivo e que
dispensava maiores esforços, idéia corrente em meios
educativos e no senso comum. Para alguns alunos, realmente, a iniciação
a este material escolar se dava de modo tranqüilo, sem grandes
percalços. Para outros, no entanto, aprender as regras de
utilização dos cadernos, tais como em qual linha e
em qual página se deve escrever ou, ainda, quais são
os espaços onde podem ser feitos desenhos, foram tarefas
árduas.
Severino foi um dos alunos que viveram isto. Esse aluno, freqüentemente,
passava horas tentando copiar o cabeçalho da lousa em seu
caderno, mas nunca parecia ficar satisfeito com o resultado. Apagava,
voltava a fazer, novamente apagava. Ora começava pelas últimas
letras apresentadas na lousa, ora começava pelo início.
Todo esse empenho perseguia um fim, revelado à pesquisadora:
fazer com que aquilo que a professora escrevia em uma linha na lousa
também coubesse em uma linha de seu caderno. Este objetivo
perseguido por Severino pode parecer um tanto bizarro, afinal sabemos
que não importa tanto em qual linha seja registrada a informação,
desde que isto seja realmente feito. No entanto, para alguém
que começa a aprender uma série de regras sobre a
escrita e sobre a utilização dos cadernos torna-se
muito difícil definir qual destas regras deve ser seguida
sem questionamentos e quais podem ser relativizadas. Desta forma,
ele seguia a indicação, repetida freqüentemente
pela professora: "se estiver igual à lousa, está
certo." Destaca-se que a tarefa era bastante difícil
para Severino, afinal sua letra era bastante grande e seu caderno,
pequeno. A professora, baseada nos registros feitos no caderno de
Severino concluía que ele era preguiçoso e que não
gostava de ir à escola.
Este breve exemplo nos alerta para as muitas informações
importantes sobre os alunos e seus processos de aprendizagem que
não ficam registrados nos cadernos. No caderno de Severino,
e no de outros alunos, não ficavam registradas as lógicas
utilizadas para a realização das lições,
nem as dúvidas e muito menos os esforços, por vezes
enormes, empenhados.
Além disso, identificou-se, ainda, que os cadernos escolares
funcionavam como poderosos instrumentos de controle na instituição
de ensino. Por meio deles, os professores controlavam a realização
das atividades pelos alunos. Porém, por meio desses materiais,
também os professores ficavam expostos ao controle. Dentro
da instituição de ensino, coordenadores e diretores
consultavam os cadernos para identificar o modo como vinha sendo
desenvolvido o trabalho dentro da sala de aula. Também os
pais eram controlados por meio dos cadernos. Um bilhete não
assinado, por exemplo, comunicava à escola que os pais não
costumavam acompanhar os cadernos dos filhos. Os pais , por sua
vez, controlavam os trabalhos dos professores e faziam reclamações
à escola relativas à quantidade e à qualidade
das atividades desenvolvidas.
O fato de servir a tantos e diferentes olhares acabava por influenciar
nos conteúdos que podiam ser encontrados nos cadernos. Os
bilhetes escritos pela professora denunciavam a não realização
de algumas atividades pelos alunos. Ou seja, a professora havia
cumprido suas obrigações e ao aluno cabia o ônus
de não ter realizado o que lhe cabia. Também ocorria
de alguns conteúdos serem registrados por meio de cópias
da lousa, mas não efetivamente explicados e exercitados,
afinal à professora cabia cumprir o conteúdo programático
planejado. Desta forma, os conteúdos registrados nos cadernos
serviam também para que a professora se resguardasse das
exigências e possíveis punições a que
estava sujeita.
Concluindo, os cadernos escolares, vistos apenas na perspectiva
da materialidade do registro, revelam elementos fundamentais da
sala de aula e do processo de aprendizagem, mas não conseguem
revelar os bastidores dessa produção, isto é,
os inúmeros processos que compõem sua materialidade,
verdadeiros desafios à escolarização plena.
Quando os cadernos escolares são desvinculados dos processos
perceptivo, cognitivo e afetivo que os compõem, são,
muitas vezes, interpretados negativamente pelo educador, até
mesmo como sinônimo de desinteresse do aluno pela tarefa escolar.
E este é um passo importante para que tanto o aluno como
o professor passem a construir uma visão negativa das possibilidades
de aprendizado e do desenvolvimento escolares, constituindo-se em
mais um elemento do processo de produção do fracasso
escolar nas séries iniciais.
Também podem revelar sobre a escola e as relações
que se dão em torno da escolarização. Mas,
em qualquer âmbito podem conduzir à formulação
de hipóteses errôneas sobre aqueles que participam
de sua materialização enquanto registros, especialmente
quando compreendidas apartadas do contexto em que são produzidas.
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