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Ouvindo os alunos: O o que dizem a respeito da escola?
Ana Karina Amorim Checchia (Universidade de São Paulo)
anakarinaac@hotmail.com

 

Ouvir o que os personagens envolvidos no contexto escolar (alunos, pais, professores) têm a dizer com relação ao processo de escolarização é fundamental para que se compreenda os elementos implicados na produção do fracasso educacional. Esta é uma das considerações centrais que norteiam a atuação psicológica em uma abordagem crítica em Psicologia Escolar.


Com base nesta abordagem, que tem como referência o trabalho de Maria Helena Souza Patto (1990), o fracasso escolar (recorrentemente visto como fruto de problemas centrados no aluno) é compreendido com base na consideração dos aspectos institucionais, políticos, históricos, sócio-econômicos e ideológicos com compõem a complexidade dos fenômenos escolares. Assim, para compreender estes diversos fatores implicados na produção do fracasso escolar, a atuação do psicólogo deve voltar-se para a escuta da versão destes personagens sobre o processo de escolarização em que estão inseridos, buscando refletir, junto aos mesmos, sobre os aspectos que estariam produzindo o fracasso escolar. Esta reflexão abrange, portanto, discussões sobre a política educacional e a ‘história não documentada’ do processo de escolarização, que envolve o histórico escolar do aluno, a relação professor-aluno, a relação pais-aluno e a relação escola-pais, além de aspectos referentes ao funcionamento institucional escolar.


Tendo em vista a relevância em atentar para a versão destes personagens, foi realizada uma pesquisa monográfica (Amorim, 2001) cujo objetivo consistiu em investigar o que dizem, pensam e sentem os alunos do Ensino Fundamental da Rede Pública a respeito da escola – por meio de um levantamento bibliográfico referente ao tema –, atentando para o modo como tal expressão vem sendo proporcionada por autores de pesquisas recentes. Nesta pesquisa, foram explicitados alguns elementos desta ‘história não documentada’, que podem contribuir para reflexões acerca da produção do fracasso escolar.


De forma geral, sobre a relação professor-aluno, percebe-se no discurso destes alunos – sujeitos das pesquisas analisadas – referências a uma percepção negativa sobre o professor, que é visto como autoritário e austero. Quando falam como seria um bom professor, referem-se àquele que ensina bem, é atencioso e consegue manter a “ordem” sem recorrer ao “uso excessivo dos dispositivos disciplinares”.


Sobre a relação aluno-instituição escolar, nota-se no discurso dos mesmos a representação da escola como um lugar onde há espaço para o prazer, e sim para a obrigação, a submissão, a hostilidade e repreensão. Assim, neste ambiente escolar, acaba imperando a insatisfação dos alunos, que não encontram espaço para expressar suas idéias ou criatividade, já que a opressão os silencia e desmotiva, desvitalizando o processo de escolarização. Percebe-se, portanto, a falta de sentido em seu discurso – além de desprazeirosas, as atividades propostas tornam-se vazias de sentido para os mesmos. Além disso, é interessante notar a referência dos alunos à idéia de que a escola seria um local onde se tem que mostrar o que se sabe e não aonde se vai para aprender o que não se sabe. Assim, alguns alunos afirmam que aprendem mais em casa, com os familiares, do que na escola.


Com relação aos sentimentos referentes à experiência escolar, percebe-se que, de modo geral, os alunos expressam tristeza, frustração, medo, indignação, revolta e desamparo. Um aspecto marcante em seu discurso é a falta da crença em sua capacidade para aprender. Inclusive, esta sensação de “não saber” introjetada pelos alunos é vista pelos mesmos como causa para repreensões e punições, dentre as quais encontra-se a expulsão da escola. Pode-se perceber, portanto, a força dos rótulos (que acabam ‘selando destinos’ e ‘cristalizam’ relações), que são introjetados e intensificados quando os demais personagens enfatizam seus erros, sem acreditar em seu potencial, e os culpabilizam pela produção do fracasso escolar. Por fim, os alunos referem-se, ainda, ao desejo de fugir e à indignação (ou revolta) frente à violência sofrida em um ambiente opressor, em que os alunos sentem-se humilhados e desrespeitados.


Diante disto, é importante destacar que, ao falar sobre a relação com a instituição escolar, expressando os sentimentos que permeiam a experiência de escolarização, estes alunos nos ajudam a compreender que o fracasso escolar é produzido por diversos e complexos fatores. De fato, o aluno tem muito a dizer e ensinar sobre a produção do fracasso escolar; mas, para isso, precisa ser ouvido (e não “silenciado”). E essa escuta deve envolver a consideração da ‘história não documentada’ do processo de escolarização (atentando para os mecanismos institucionais que, juntamente com a política educacional e com o quadro sócio-econômico vigente, compõem esta história), a fim de não se compactuar com a culpabilização do aluno – ou do professor – pela produção do fracasso escolar.Referência bibliográfica: Amorim, Ana Karina Ouvindo as crianças: o que dizem a respeito da escola? – Uma revisão bibliográfica. Trabalho monográfico, elaborado sob orientação da Profª. Drª. Marilene Proença Rebello de Souza, referente ao Curso de Especialização intitulado “Psicologia e Educação: Processos de Aprendizagem e de Escolarização” realizado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo em 2001.